A CIDADE E A MODA

Alexandre Alves Costa

 

   

Um dia estava a tomar café numa esplanada da Foz, ouvindo sem querer, mas a querer, uma conversa de duas tias que apreciavam com olhares gulosos alguns jovens surfistas que entravam e saiam do mar, vestidos com aqueles maravilhosos fatos pretos colados ao corpo. Alguns vestiam-nos ou despiam-nos bem perto de nós. Os cabelos não tinham gel, tinham sal e muitos eram loiros, cor da areia. Um strip masculino, pelo preço de um café! O sol aquecia e sentia-se, naquele princípio de primavera, o seu brilho no mar, o desabrochar da natureza, da sensualidade, do desejo, que a todos, tias, surfistas eu próprio, atingia.

Ali ficamos muito tempo. Por fim o grupo já vestido juntou-se, sentado na praia a conversar, bem perto de nós. Ouvia-se o que diziam. As senhoras calaram-se e, pouco tempo depois, olharam uma para a outra com um ar entre o surpreendido e o escandalizado: que surrelfada! Isto é gente de ilha ou de bairro … Já não se percebe nada!

E eu pensei: então quando a moda dos Diogos ou Franciscos e Joanas lhes chegar e deixarem de ser Nelos, Nandos ou Carlas, a confusão vai ser muito maior.

Nesta pequena e insignificante história está a cidade: a sua estrutura física de classe (as ilhas, os bairros, a Foz …), os seus utentes e as suas linguagens (a pronúncia da linha e a do norte), as culturas que separam o Nelo, do Diogo, as imagens de consenso interclassista construídas pela moda (apesar das marcas e preços das pranchas serem bem diferentes), a sexualidade pura, animal, cujos mecanismos instintivos de atracção física, através do olhar, representam, no seu melhor, a radicalidade da utopia da igualdade e da liberdade absolutas.

Da infinidade de temas abordáveis a partir daqui, escolherei dois que tratarei sucinta, e autonomamente:  

1. O heroísmo da vida moderna – a nova natureza artificial, a cidade e a moda;  

2. O consenso manipulado e a liberdade – distinção, uniformização, diferença;  

Para terminar com uma máxima moralista a que chamei: A cidade - território privilegiado da ligação e da harmonização das diferenças.

    

 

 

1. O heroísmo da vida moderna – a nova natureza artificial  

Esta primeira reflexão refere-se à leitura inevitável, quando o tema é a moda e a cidade, do “Pintor da vida moderna”, de Baudelaire que para o efeito gostosamente reli, o que me recolocou nas vésperas da modernidade.

O pintor da vida moderna é, antes de mais, um ser urbano grande amante da multidão e do incógnito que mergulha na multidão como num imenso reservatório de electricidade, como um caleidoscópio dotado de consciência.

O homem ama tanto o homem que, quando foge da cidade, ainda é para procurar a multidão, isto é, para refazer a cidade no campo.

A importância desta paixão pela cidade moderna e pelas multidões é a de que ela permite ao artista encontrar beleza e harmonia onde se poderia ver apenas o caos, desumanização, ou a própria impossibilidade de prosseguir uma experiência humana. De facto, a concentração da população, de actividades e de funções que caracteriza as cidades após a primeira revolução industrial, transforma-as numa realidade nova, totalmente distinta do velho burgo. Na metrópole a liberdade e a dominação, a diversificação de possibilidades e o estreitamento das vidas, a sofisticação civilizacional e a mais crua violência parecem crescer na proporção do seu próprio crescimento. Muitos dos primeiros discursos sobre a cidade moderna comparam-na já a uma nova selvajaria. Veja-se em Portugal as “Cidades e as Serras”, de Eça, os “Simples”, de Junqueiro, as “Palavras Loucas”, de Alberto Oliveira, a problemática e o debate sobre a Casa Portuguesa.

Para Baudelaire, a cidade, como produto civilizacional, representa o verdadeiro meio ambiente do homem moderno, no qual se joga realmente o destino espiritual da humanidade. As condições de possibilidade da experiência presente e futura estão condensadas nessa nova selva que é a cidade e exige outras tantas formas de heroicidade quanto as que exigiram o primeiro confronto do homem com a natureza. O que são os perigos da floresta e da pradaria ao pé dos choques e dos conflitos da civilização? A compreensão desta nova condição convida a procurar aventuras horríveis e raras através das capitais. O espectáculo da vida elegante e dos milhares de existências flutuantes que circulam nos subterrâneos de uma grande cidade provam-nos que não precisamos mais do que abrir os olhos para conhecer o nosso heroísmo - o confronto com os novos perigos, os que se vão insinuando nas margens da sociedade e da moral burguesas.

O protagonismo do artista como intérprete da modernidade é convertido, assim, numa verdadeira heroicidade – a de resgatar da vida urbana, numa tarefa simultaneamente estética e ética, a possibilidade de uma experiência moderna. O modo de relacionamento do artista com a multidão é o fenómeno que exprime este novo heroísmo, do “flâneur”, do que vagueia ao acaso, que se funde nela arriscando a dissolução do eu, da própria subjectividade, num eu insaciável do não eu – eu sou todos, todos sou eu.

É a cidade moderna, ainda, o contexto do fenómeno que, para Baudelaire, condensa a consciência da modernidade, a moda. Ela é, por excelência, o sinal do tempo, a estrutura abstracta dos tempos por vir, a gestora permanente da linha de partilha entre passado e futuro, a gestora do novo, da sensibilidade, do gosto. A moda surge, assim, como o mecanismo moderno por excelência de valorização do novo e representa, por isso, a estrutura temporal da própria arte moderna. Ao mesmo tempo fornece-lhe todo esse importantíssimo material vivo do presente que deve integrar a representação artística, como, o vestuário, as posturas, os gestos, senão mesmo os rostos.

A assimilação da arte ao fenómeno da moda favorece a primeira entrada na arte de temas banais, sem a inspiração clássica, e académica. No percurso da arte moderna e das vanguardas, a possibilidade de criação de obras de arte passará, de facto, por uma relação com o objecto banal, com o objecto de série, tal como o foram evidenciando, de diferentes maneiras, por exemplo, Duchamp ou Warhol.

Mas, do meu ponto de vista, a mais interessante implicação do fenómeno da moda que Baudelaire retém, é, do ponto de vista estético e ético, a valorização do artifício que o ritmo e a arbitrariedade das mudanças da moda impõem como evidente. De facto, ainda que por vezes invoque um fundamento natural e necessário, a moda é em si mesma, a imposição da mudança como mecanismo autónomo – o contrário da necessidade e da permanência das leis da natureza. Este artificialismo que é, por definição, o objecto da moda, é também, para ele, o universo do belo. Do ponto de vista estético tal significa o abandono da natureza como modelo por excelência da arte, caucionando-se, ao mesmo tempo, a sua desvalorização moral. Daí o elogio da maquilhagem, da “coquetterie”, nunca entendidos como complemento ou embelezamento da natureza. Eles constituem uma segunda natureza que deve triunfar sobre a primeira para criar o belo. Não há, assim, um belo natural, sendo o belo, sempre, criação das artes, entre as quais figuram metaforicamente as das maneiras, do vestuário e da cosmética, ditadas pela moda. A função do artifício não é a de reproduzir o que é natural, mas sim de o suplantar, de criar um novo cosmos, uma nova ordem.

Tal como a construção da cidade, onde continuamos a viver e cada vez mais. Nelas crescem, por entre o tumulto, os nossos diversos paraísos artificiais perante os quais crescem as desconfianças culturais éticas e políticas. No seio de justificadas preocupações ecológicas as cidades são objecto privilegiado destas desconfianças e a elas associa-se uma nostalgia pela natureza, em nome da qual se esboça uma nova estética de retorno ao belo natural. Mas se é indesejável refazer a cidade no campo, é, por certo, impossível refazer o campo na cidade, estando esta nova ética ecológica muitas vezes condenada a dissolver-se numa pura estética para consumo de citadinos.

A tragédia de Moçambique dificilmente se tornará, no entanto, em objecto de fruição estética.

    

 

 

2. O consenso manipulado e a liberdade - distinção, uniformização, diferença  

A moda com os mecanismos e a amplitude que hoje lhe conhecemos, é um fenómeno que se manifesta, sobretudo a partir do século XIX, mesmo se os seus antecedentes podem ser encontrados em séculos anteriores, no seio da vida da corte. Tal facto, aliás, é, em si mesmo, significativo, pois revela a origem social e política do fenómeno da moda: a aristocracia. A progressiva passagem das sociedades modernas europeias a regimes tendencialmente liberais e democráticos é, por sua vez, uma das fortes razões para a transformação do fenómeno da moda em mecanismo social, económico e político generalizado, tanto no que respeita ao seu âmbito de funcionamento, quanto no que respeita ao universo dos objectos que manipula. Ela é, no fundo, a manutenção de um mecanismo de distinção (ou se quisermos de aristocratização), em sociedades tendencialmente massificadoras, produzindo, porém, um efeito ambíguo simultaneamente comprometido com a uniformização.

A importância deste fenómeno leva a que este seja teorizado no âmbito da sociologia e da semiologia assinalando que ligar e distinguir são as duas funções da moda, que a sua essência conduz em que só uma parte do grupo a usa, enquanto a outra se encontra apenas em marcha para ela, que ela fabrica como poucos outros fenómenos uma forte consciência do presente, que a sua valorização do presente é, ao mesmo tempo, valorização da mudança, que a tendência nas sociedades democráticas é a da sua generalização, como mecanismo, a todo o tipo de objectos e realidades, fornecendo-lhes um certo “cachet” estético, mesmo em domínios perfeitamente estranhos ao estético, etc.

Vamos reter a questão da distinção e a da uniformização, para valorizar a uniformização que permite aos surfistas estar por dentro e serem até objecto de desejo e, em contrapartida desvalorizar a distinção aristocrática das marcas da prancha. Preferindo colocar-me do lado do direito à igualdade não tenho dúvidas que ele é, sobretudo, uma conquista do mercado que, através dos meios de comunicação, manipula consensos generalizados a favor da rentabilidade da produção em série. Não tendo dúvidas, também, que a distinção é o outro lado do mercado na sua produção de objectos únicos ou de mais selectivo uso, pelo preço, tão artificialmente elevado, que não diminui a sua rentabilidade.

Neste sentido não poderemos separar as questões da moda, das questões mais gerais da sociedade da cultura de massas, em que se pode falar de estetização geral da vida, enquanto os media, que distribuem informação, cultura, entretenimento, sempre segundo critérios gerais de “beleza” – atracção formal dos produtos – assumiram na vida de cada um, um peso infinitamente maior que em qualquer época do passado. Identificar a esfera dos media com o estético pode suscitar algumas objecções, mas deixa de ser tão difícil admitir uma tal identificação se se tiver em conta que, para lá e mais profundamente do que distribuir informação os media produzem consenso, instauração e intensificação de uma linguagem social comum.

A função a que costumamos chamar, negativamente, organização do consenso, é uma função requintadamente estética, pelo menos num dos sentidos principais que este termo assume desde Kant, em que o prazer estético não se define tanto como o que o sujeito experimenta em relação ao objecto, mas como o prazer que deriva de constatar a própria pertença a um grupo junto à capacidade de apreciar o belo.

Sem discutir a natureza dos mecanismos, obviamente os do mercado, podemos dizer que a moda é um dos aspectos da estetização geral da vida porque através dela se intensifica uma linguagem comum e se constata a pertença a um grupo social alargado. A moda é assim um meio de inclusão e cada vez em menor grau de exclusão porque Calvin Klein, Armani ou Levis podem custar caríssimo numa boutique de luxo, ou baratíssimo sendo praticamente os mesmos na feira de Custóias ou de Espinho.

A diferença, essa, tem pouco a ver com a moda, não é uma benesse do mercado, é um direito que temos que conquistar, é o salto qualitativo que, a partir da garantia da igualdade, nos faz reagir positivamente ao consenso manipulado e permite exprimir a nossa individualidade. A conquista do direito à diferença é parte integrante da luta pelo aprofundamento da liberdade e da democracia.

Não vos proponho, no entanto, o vanguardismo exibicionista, espécie de culto do passado. A performance deve ser o espectáculo que todos damos a todos, uns aos outros, um ao outro, diariamente, nos novos espaços formalizados e ordenados, ou nos dias das celebrações especiais que deverão obrigar a outras regras no vestir, no estar ou no falar. Deveremos conhecer as regras e, talvez, cumpri-las para as poder anular, substituindo-as por outras. Teremos de saber o terreno que pisamos como condição mínima de liberdade.

Nem a marginalidade, o regresso à solidão inicial, ou à natureza são alternativas. De resto não é verdade que detestamos a cidade, criação humana máxima, ao contrário ela estaria deserta.

 

 

 

 

 

Nota

Neste texto, base de uma intervenção realizada na FNAC/Norte Shopping, numa mesa redonda sobre cidade, identidade e moda, em Março de 2000, utilizei de forma livre o excelente posfácio de Teresa Cruz ao “O pintor da vida moderna” de Charles Baudelaire, Vega, 1993.

 

 

 

 

desenhos de Pedro Pousada