REFAZER A MEMÓRIA DOS HOMENS

Ana Vaz Milheiro

   

 

Todo o objecto amado é o centro de um paraíso.

Novalis

   

 

A primeira hipótese de reflexão que o projecto de recuperação e restauro do Centro Universitário Maria Antónia, em São Paulo, do escritório paulista Una Arquitectos, levanta é a da memória. Não a memória exercitada dentro da tradição histórica da arquitectura, mas a memória enquanto elemento programático. Este dado gere o projecto e impõe-se como o de maior dificuldade.

 

O Centro Universitário Maria Antónia é um pólo da Universidade de São Paulo localizado no centro da cidade (rua Maria Antónia, vila Buarque) que desenvolve actividades culturais na área do teatro, da literatura e das artes plásticas. Compõe-se por dois edifícios independentes, com passados distintos: o edifício Rui Barbosa e o edifício Joaquim Nabuco. No primeiro instalou-se, em 1949, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, transformando-se num centro de discussões académicas e sociais. Em 1968, durante a ditadura militar brasileira, o edifício Rui Barbosa foi violentamente ocupado por forças policiais. Desses confrontos resultaram a morte de estudantes. Nesse mesmo ano, também, a FFHCL transferiu-se para o campus universitário, numa região longe do centro. Desde a sua construção, os dois edifícios têm atravessado sucessivas intervenções e usos. O escritório Una Arquitectos (Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara e Fernando Viègas) foi chamado, em 2000, para apresentar um projecto de recuperação e restauro para o conjunto, obedecendo a um programa que se destinava a albergar simultaneamente um museu - Instituto de Arte Contemporânea -, um núcleo destinado a cursos de artes plásticas e o grupo de teatro da USP (TUSP).

 

Esta é a memória que constrói o passado do Centro Universitário Maria Antónia e também o ponto de partida do projecto.

 

A memória surge, aliás, como tema recorrente da cultura arquitectónica ocidental e trabalhá-la é matéria de construção que acompanha conscientemente a prática da arquitectura, pelo menos desde o Renascimento. Sempre se colocou como fonte e manancial de formas e fórmulas num mundo de iniciados. No decorrer do passado histórico da arquitectura, a memória configurou-se como espectro de definição estilística, ou melhor, como manifestação de um espírito instruído. Consubstanciou-se elemento agregador de um passado colectivo que a atravessava como um todo, ainda que correspondesse a elaborações teóricas capazes de formularem léxicos e gramáticas com aplicação directa ao novo. A memória tornou-se assim assunto de linguagem ou de fixação de um estilo. Foi ainda pretexto de maneirismos. Instrumentalizou-se através do desenho. Mediu-se pela força da abstracção e as suas implicações não estavam sujeitas a serem clarificadas. Este princípio norteou a sua relação mais imediata com a disciplina arquitectónica. Mas raramente o foi como imposição programática, quer dizer, como hipótese de resguardar - através de elementos materiais sobreviventes, independentemente do seu valor artístico - a história de um lugar.

 

O desejo de preservação de um lugar construído pela necessidade de perpetuar a memória de um acto, gesto ou acontecimento é assunto relativamente recente na história da arquitectura. Transformar a memória em programa é mais que assegurar a persistência monumental de paredes vazias, imobilizando-as e espartilhando-as. É reinventar mecanismos de reavaliação do significado desses mesmos lugares. É reatar afectos que o tempo pode ter maltratado e que até a própria escrita da história deseje, ou tenha desejado num dado momento, omitir ou ofuscar. É reconstruir um quadro patrimonial com olhos postos no futuro.

Intervir em espaços como os edifícios Rui Barbosa e Joaquim Nabuco é como desfiar um passado simultaneamente feito de histórias pessoais, colectivas e institucionais que se revelam nas sobreposições labirínticas que, enquanto construções, chegaram até nós. Existe, portanto, uma teia intrincada de áreas, de resíduos, de interstícios elaborados pelos usos descontínuos desses dois edifícios, autónomos na sua origem e vocação, artificialmente unificados. Esses obstáculos físicos e materiais contam a história individual de cada um e, simultaneamente, impedem a visualização plena, ou melhor, clarificada, dos objectivos que hoje se desejam para o seu conjunto enquanto estrutura permeável à cidade.

 

A proposta do escritório Una prende-se com o destrinçar desses filtros colocados por décadas de reconstruções menos felizes. Cumpre-se na clarificação espacial revista numa leitura das implicações que historicamente carregam. Este princípio é pertinente já que isoladamente os edifícios não contêm em si qualidades que exijam a sua preservação material. Esta resulta de contingências acidentais. É fruto de um instante histórico que colocou o edifício Rui Barbosa em evidência, transformando-o num símbolo da resistência democrática e das lutas político-estudantis anti-ditadura. A obrigação da sua preservação é assim de carácter histórico. Essa história – ou parcela dela – constitui a memória que o programa também privilegia. Não na citação conformada e estática, porque não é disso que tratam o programa e o projecto, mas no esclarecimento, através da arquitectura, dos sentidos que certos passados devem indiciar.

Define-se num apuramento desses mesmos significados simbólicos e na consciência de que utilizações continuadas ainda que meritórias - como as de vocação cultural e formativa que actualmente já decorrem nos dois edifícios - não são, por si só, suficientes para dignificar um uso e uma memória. Há que envolvê-las numa matriz que retome a força do sentido público dos seus objectivos. O problema fica assim identificado: metamorfosear espaços fechados em estruturas abertas e transparentes perante a cidade. Introduzir o conceito de espaço público ultrapassando as dificuldades decorrentes da natureza do desenho que os conformou, porque eram, na sua génese, do domínio do privado.

 

Essa intenção percebe-se na proposta de criação de uma praça urbana que dará sentido ao vazio intersticial entre os dois edifícios, instrumentalizada como espaço de manifestação. Corresponde ao desejo de transformar edifícios dissonantes num continente único capaz de inverter a condição inóspita de uma cidade que progressivamente se fragmenta em parcelas encerradas sobre si próprias. Enquanto método processual, trata-se de uma operação regenerativa que se fixa numa vontade muito simples. Como se o gesto mais recatado fosse o esperado. A tentação de monopolizar a rua Maria Antónia através de uma intervenção monumental, condição que o próprio uso dos edifícios poderia justificar, até pelos seus novos conteúdos museológicos, é recusada pela clarividência de que o acto necessário é também o menos formal. Tudo se resolve através de planos horizontais – a praça desdobrada em cotas diferenciadas ligadas por rampas – que ampliam a mobilidade do público e o cativam para acções pontuais que residem no interior dos dois edifícios, convidando-o à participação.

A antecipação que aqui se arrisca é fruto da clareza do próprio projecto. O propósito parece ser o de captar silenciosamente as multidões que, em tempo lectivo, se acotovelam na movimentada artéria da Maria Antónia, que se espalham pelas calçadas dos bares, crendo na (velha) capacidade da arquitectura refazer hábitos e formar indivíduos. Também este é um trabalho sobre a memória, já que se trata de recuperar a utopia da cidade enquanto espaço livre, nem seja pela criação esporádica de lugares abertos e generosos. É um gesto que contraria a dinâmica segregadora e elitista instalada nos modos actuais de habitar a cidade de São Paulo.

 

A memória de que se serviram os autores na elaboração do projecto é precisamente essa que recupera o ideal de espaço público, a que liberta as áreas residuais que circundam os edifícios privados tornando-as chão de continuidade urbana. Desta operação há muito que o Centro Universitário Maria Antónia carece. Porque, analisado enquanto espaço, cerceia ainda os movimentos individuais quando se pretende que seja augúrio de liberdade. Para que finalmente perca a domesticidade decorrente das suas condições de origem, assegurando a vocação colectiva que ambiciona. A reestruturação das circulações internas pronunciadas no projecto – por exemplo – ilustram a atribuição de um sentido mais público a todo o conjunto. Era urgente racionalizar o seu funcionamento, diminuindo os obstáculos que uma circulação tortuosa impõe, já que também esta é factor condicionante, requisitando uma iniciação prévia que afasta potenciais utilizadores. Não que as sobreposições de planta que os edifícios ganharam em resultado do seu extenso tempo de vida tivessem sido concretizadas com um propósito de exclusão, mas porque as especificidades dos seus programas assim o determinaram.

A inadequação do preexistente aos modos contemporâneos exigia que os elementos em excesso fossem eliminados para que não surgissem como empecilhos à plena comunicação das intenções que reforçam e corroboram a existência de um conjunto com as atribuições do Maria Antónia. Neste contexto, designar as virtudes que as novas áreas poderão oferecer, desde a dignificação das actividades cénicas do grupo residente de teatro, passando pela melhoria das oficinas de artes plásticas, até aos novos espaços museológicos, parece ser redutor.

Tudo isso é desenhado e reformulado com a atenção que os seus programas, ainda que múltiplos e autónomos, obrigam. Tirou-se o máximo partido do que subsistia e era imperativo manter, sem se renunciar à poética que a arquitectura propicia quando exercitada com precisão. Depois de reconstruídos, esses espaços revelarão o verdadeiro sentido dos seus conteúdos. Contudo, não reside no cumprimento acertado do programa o aspecto revolucionário que o novo Centro de certo modo inaugura. Mas pela reafirmação da sua posição urbana. Ou melhor, porque parte de um desejo que se determina num modo de fazer.

 

Enquanto instituição ao serviço da comunidade, divulgadora das artes nas suas mais diversas e difíceis manifestações - plásticas, cénicas, literárias - o Centro Universitário necessitava de uma estratégia arquitectónica que finalmente reflectisse esta vontade de integração. Já que é a arte - habitante privilegiado da Maria Antónia - actividade de inclusão, meio medidor da capacidade empreendedora de um povo, sinónimo de sobrevivência cultural. E por isso transporta ideais de democracia que a arquitectura tem que cumprir, disponibilizar e, porque não dize-lo, educar sem paternalismos indesejáveis. É na criação de um ambiente propício ao desenvolvimento do indivíduo que esta deve progredir. Este princípio não se insere num debate regional, ou brasileiro, antes se amplia à arquitectura produzida no mundo. A sua actualidade é por isso indiscutível.

 

Ao Centro Universitário Maria Antónia faltava-lhe então uma clareza arquitectónica que fosse capaz de accionar todos os imaginários, sem excepção, no empenhamento da cidadania. Um processo capaz de inverter a irresponsabilidade, a que injustamente se convencionou denominar liberal, e que condiciona muita da construção corrente que se demitiu de fazer e ser cidade. Aparentemente, o arquitecto contemporâneo parece ter-se colocado à margem dos problemas sociais e urbanos, agindo como um intermediário e afastando de si responsabilidades na reconstrução das cidades. Assume-se, portanto, como um técnico (executante) e não como um agente participativo. Esta situação conduzirá fatalmente ao fim da arquitectura enquanto disciplina de investigação e prospecção, mantendo-a no limbo das actividades meramente burocráticas.

Corre-se o risco do querer ser arquitecto ou do requisitar um arquitecto vir a ser, como consequência, acto de uma disposição legal e não manifestação do desejo de construção do mundo. Num tempo como o que atravessamos, em que o exercício da arquitectura não reivindica qualquer significado social ou ideológico, resta somente o desafio colocado por essa verdade simples que é existir, de facto. É por isso que a neutralidade é cada vez mais um luxo inacessível à prática profissional. O momento não é o de arquitecturas amenas, antes o de arquitecturas propositivas que, contudo, não esgotem as suas ferramentas em materialidades formalistas ou exuberantes. Esta é a mensagem do projecto para o Centro Universitário Maria Antónia. É um projecto concretizado a partir de uma vontade precisa – a de repensar de novo a cidade, confrontando-a com uma intervenção que surpreenda pela sua singularidade, simplicidade, generosidade. Uma obra plena de valores que nos recordam que somos ainda humanos e que esta é a memória que pretendemos perpetuar.