EXPOSED

José António Bandeirinha

 

 

 

 

Revi as fotografias. Algumas, como as do Bernard Plossu, muito tempo depois. Através delas, como através de tantas outras coisas, reconheci a cidade, esta cidade.

Antes disso, porém, deixei-me novamente fascinar pela beleza das imagens, deixei-me absorver pela sua expressão plástica. Perguntei-me se, ao tentar fixar momentos de uma realidade reconhecível, vertendo-os para uma plataforma de percepção mais universal, as fotografias não teriam também a perversa ambição de corroer aquela realidade, amaldiçoando tudo o que fica de fora dos momentos eleitos, sonegando o pouco que a luz "desenha" de um modo harmonioso, condenando-nos a habitar as imperfeições residuais e os fragmentos de alma que escaparam às objectivas. Achei que não! Afinal de contas, tudo não passa de papel e nitrato de prata ou, no caso presente, de nuances de pixel em definição corriqueira.

Mas então, como interpretar o estranho elã que tanto aproxima as fotografias — obras únicas, puras, cristalizadas — da cidade quotidiana que retratam — repetitiva, cíclica, bastarda e em constante degenerescência? Como é que esses dois campos perceptivos se harmonizam de modo tão natural? Coimbra não é Nova Iorque, não é vulgar identificarmos iconografias que superem o clichê, abjecto e mil vezes macaqueado. Para muitos, inconfessadamente, Coimbra não passa disso mesmo, duma referência estereotipada, cuja repetição acrítica desgastou o conteúdo e o significado real. Não passa de um imaginário paradoxal e altivo que, embora radicado numa cultura urbana ancestral e identitária — e talvez por isso mesmo — se foi petrificando como ecrã obsoleto da realidade vivencial que se degradava face ao fluir dos tempos. Será que esse imaginário, fossilizado, foi também alimentando um estranho e nunca resolvido conflito que esta cidade mantém com a sua própria renovação? Degrada-se o real e desenvolve-se um campo de minas em torno do imaginário, para o proteger. Do primeiro, podemos agora colher a poética da decadência, em mastigado exercício para consumos neo-românticos. Registamos, porém, a persistência do segundo, a tenacidade com que tem resistido aos assaltos e, sobretudo, a eficácia usurpadora dos lugares da ausência do primeiro.

Mas, ao contrário do que possa parecer, a dualidade inerente a estes confrontos — que torna excêntricas todas as expressões da cultura do real, do momento, do espaço físico tal como é — não se entranha facilmente como manifestação de uma ideia colectiva, ou de um complexo endémico, que possa absorver, ou sequer perturbar, o quotidiano daqueles que, com naturalidade, usam, vivem e fruem a cidade. Manifesta-se condescendentemente quando a perturbação se torna insuportável, quando o escândalo se não pode escamotear, normalmente sob a forma de desabafo púdico, de constatação de uma fatalidade familiar.

A reprodução selectiva de um imaginário mítico para Coimbra, e o consequente distanciamento da realidade contemporânea, tem correspondido, e corresponde, a emanações de cima para baixo, a configurações balofas e exageradas das especificidades urbanas, frequentemente difundidas e incentivadas pelo poder, quer como referência taxonómica dos territórios do seu domínio, quer como artifício de perpetuação contratual do status.

A cidade, através das expressões mais verdadeiras do pulsar urbano, através das contaminações culturais que podiam e deviam nutrir o seu estatuto fortemente identitário, tem sido asfixiada e fragilizada pela acção erosiva da insígnia mítica que o poder insiste em atribuir-lhe, não como motivação, mas como limite.

Assim exposta, fica depois à mercê dos desígnios mais vis, dos voluntarismos mais mesquinhos, dos estigmas mais provincianos. Fica sujeita às utilizações voyeuristas mais perversas, deixando que a sua irrefutável beleza física seja explorada para fins licenciosos, para estimular prazeres privados e para cevar as mais diversas ambições de poder, em estado bruto. Assim vai envelhecendo.

Exposed é uma expressão da gíria específica do marketing porno que, em letras amarelas sobre fundo púrpura, encarna uma triste metáfora para a cidade.

Eu, e muitos como eu, preferimo-la nua. Estou em crer que os fotógrafos também…  

 

Novembro de 2002

(publicado em: AA.VV., Coimbra, Coimbra, Centro de Artes Visuais — Encontros de Fotografia, 2003)

 

 

 

 

 

 

© Bernard Plossu

 

 

 

© Bernard Plossu

 

 

 

 

© Debbie Fleming Caffery

 

 

 

 

© Paulo Nozolino

 

 

 

Fotografias da colecção dos Encontros de Fotografia de Coimbra