UNIVERSIDADE GLOCAL

José António Bandeirinha

 

 

 

 

 

 

 

A necessidade de debater a Universidade é hoje tão consensual quanto inconsequente, é quase um lugar-comum. As portas das instituições universitárias abrem-se todos os anos para a entrada de milhares de jovens, num registo mais rotineiro que ponderado, embalado por “insofismáveis” pragmatismos de mercado que conduzem a formação universitária a um beco: aquilo que há apenas alguns anos atrás era considerado, embora de um modo romântico ou alegórico, como a perspectivação de um futuro profissional especializado, de uma carreira ou de uma vocação, hoje não passa de um simples produto de consumo. As escolas “vendem” cursos, os estudantes compram-nos. Nem as primeiras nem os segundos têm muito tempo para se deter com considerações acerca da sua própria identidade, e do modo como se integra, ou resiste, no imenso emaranhado[1] ontológico a que nos habituámos a chamar Universidade.

O debate é inconsequente porque, na maior parte das vezes, longe de se centrar na dinâmica relacional que a Universidade deve estabelecer com a comunidade que a acolhe e com o mundo que a rodeia, resvala para o âmbito restritivo de um mero “estudo de mercado”,

“Valorize o seu futuro” — assim versavam as páginas publicitárias das revistas de quadradinhos brasileiras que eu lia quando era miudo. Os cursos técnico-profissionais que divulgavam, ministrados à distância, eram apresentados como um depósito bancário, como um investimento de alta rentabilidade. Mal eu sonhava que, passados estes anos, as mais conspícuas instituições de ensino superior no meu país viriam também a ter no marketing dos cursos um dos seus mais sérios empenhos.

No fundo, os temas que se poderiam atirar para a fogueira de um eventual debate levariam, entre outras, à formulação de questões tais como:

Formar homens e mulheres para o mundo ou formar quadros estatísticos para o “mercado de trabalho”?

Adequar os vínculos estatutários ancestrais dos cursos ao fluxo constante dos novos domínios dos saberes ou aceitar encomendas para formar as especificidades técnicas mais carentes nas denominadas “empresas”?

Universalizar os domínios culturais da aprendizagem ou aprofundar e pulverizar microespecializações absurdas?

Fomentar a síntese e a sistematização ou deixar-se sucumbir ao ritmo compassado da rotina analítica?

São questões que , antes de mais, sugerem desvios. Não são passíveis de ceder a uma resposta peremptória, mas podem alertar para a necessidade de repensar a Universidade, a sua função social, a sua dimensão cultural e identitária, as trocas que estabelece com a sociedade civil.

Por exemplo, uma das incumbências que nos habituámos a ver instituída é a da prestação de serviços à comunidade — como se todas as incumbências não se pudessem congregar nesta asserção. A esse propósito, podemos também perguntar como estabeler o sistema de relacionamento entre as diversas universidades e os diferentes territórios, as diferentes cidades, as diferentes regiões. Vêm-nos à memória as idílicas tentativas de adequar o ensino universitário às especificidades sociais e económicas de cada região. Mas ensinar pecuária numa região de criação de gado, ou ensinar electrónica numa cidade industrial, ou biologia marinha junto ao oceano, são opções sem nenhum significado acrescido se a instituição universitária que ministra esses ensinos não for, passe a redundância, universal. Mais importante que funcionalizar, ou dirigir, geográficamente as matérias de aprendizagem é catapultar as comunidades locais para uma dimensão que supere as limitações decorrentes da sua condição periférica, ou economicamente débil, ou culturalmente empobrecida, ou tudo em simultâneo. A Universidade pode ser o gerador de referências globais para o sistema de contextos locais onde está inserida.

Assim também em Coimbra, nesta Coimbra contemporânea, demasiado pequena e atávica para poder sediar os mecanismos de “profissionalização” técnica dos poderes globais, que por cá se instalam só temporariamente, deslocalizados, em tendas de campanha, e demasiado grande e diversa para cultivar consensos esclarecidos ou para se deixar submeter a despotismos iluminados.

 


[1] Para um upgrade da metáfora leia-se esparguete (à bolonhesa).

 

 

Coimbra, 25de Janeiro de 2003

(texto publicado no jornal universitário A Cabra, 28-01.2003)

 

desenho de Pedro Pousada