Corvo, 25 de Abril de 2003

Caro António

 

Pedes-nos para escrever sobre as particularidades de desenhar um espaço para expor arte contemporânea.

Devemos-te dizer que nada de significativo encontramos que particularize tal exercício.

Talvez as galerias de arte, ou espaços para exposição de obras de arte necessitem de paredes lisas e brancas. Terão necessariamente de ser brancas? Já as vimos extraordinárias em betão.

Enfim, talvez as galerias de arte necessitem de superfícies de paredes homogéneas como as farmácias necessitam de gavetas e as maternidades de berços. Terão necessariamente de ser homogéneas? Já as vimos extraordinárias, velhas e manchadas.

Mas isto é somente a encomenda. Cumprida a encomenda, respeitado o programa, e tem sido sempre fundamental para nós fazer cumprir o programa, começa a obra de arquitectura. Isto é, a obra de arquitectura está sempre para além do programa que lhe dá origem, mesmo quando os dois, programa e obra, se fundem.

Estou certo que nenhum de nós acredita no espaço neutro. Espaço e neutralidade são mesmo conceitos opostos. E ao branco já ninguém associa a pureza.

Como diz o E.S.M., certamente um anjo de Klee sobreviveria a um espaço barroco.

 

Vimos há pouco tempo três telas tuas retratanto três professores universitários.

O facto de os três serem arquitectos terá condicionado o teu trabalho? Isto é, para a construção da obra teve relevância esta particularidade? Mesmo que à maneira clássica introduzisses algum ícone da profissão, como os cadáveres nas lições de anatomia, ou a bíblia sob o cotovelo do Profeta Jeremias, ambos  de Rembrandt, seria isto tão determinante?

O programa está para a arquitectura como a necessidade de figuração dos três retratados está para estas tuas obras.

 

E como são infindáveis as variedades de programas a que um arquitecto poderá ter de responder, não deverá este ter a ilusão de ser especialista em qualquer matéria para a qual é  convidado a desenhar.  Se assim fosse, para desenhar um laboratório químico, ninguém melhor do que um químico, para desenhar um museu no Cairo, ninguém melhor que um egiptólogo, para desenhar uma galeria de arte  deveríamos convidar um artista plástico.  Na verdade sabemos que não é assim que se processa. E só não é assim porque a arquitectura continuará a ser o exercício sensível e culto da organização do espaço, nas palavras do arquitecto Fernando Távora, que o vosso departamento em boa hora resolveu avivá-lo na nossa memória.

 

Um abraço

 

Carlos Antunes e Désirée Pedro

 

 

 

CAPC   

Círculo de Artes Plásticas de Coimbra 

Centro de Arte Contemporânea

Carlos Antunes e Desirée Pedro

 

 

Alguns trilhos recentes da arquitectura contemporânea têm omitido a geometria, a luz e o espírito do lugar que a antecede - o seu contexto material e plástico.

A opção sistemática por caixas brancas, abstractas e autistas poderá conduzir a arquitectura a uma repetição sem renovação.

Ao visitar Talliesin Fernando Távora disse em 1960 que a casa de Gropius em Lincoln lhe parecia um frigorífico pousado numa colina. Obviamente dizemos nós 40 anos depois, que a casa de Gropius não é nenhum frigorífico pousado numa colina. Mas Talliesin é uma obra iluminada.

 

A  arquitectura que temos desenhado confronta-se com este dilema contemporâneo de não querer desenhar excessivamente mas manter-se ainda permeável às infiltrações do lugar. Dito de outra forma, desenhamos elementos mínimos não encerrados em si mesmos.

Aparentemente o carácter mínimo da proposta que desenhámos para o CAPC, revela uma contradição com os pressupostos anteriormente defendidos.

 

A preexistência: O espaço cedido ao CAPC situa-se na sub-cave da Biblioteca Municipal, um edifício dos anos 70 localizado no Jardim da Sereia, um grande jardim municipal com mata, situado no coração da cidade. Tem uma área aproximada de 300 m2 e destinava-se a arquivo de periódicos. Estava muito condicionado quer pela estrutura, quer pelos panos de paredes existentes destinados a suportar prateleiras.

Com uma orientação Norte-Poente, devido à sua função original apenas possuía fenestrações para arejamento.

 

O Programa: recepção atendimento; livraria de arte; pequeno ciber-bar; salas de exposição; mini-auditório; sala de direcção e um orçamento muito condicionado - a obra custou 10 000 contos o que perfaz um valor de 33 contos o m2.

 

A Proposta: estabelecer uma forte cumplicidade entre interior e exterior, tirando partido da luz filtrada pelas copas das grandes árvores, enfatizando a relação visual com o jardim por reforço da axialidade da estrutura existente.

 

A Solução: edificação de grandes panos de parede revestindo como uma  estrutura existente, limitados superiormente por uma viga transversal existente, por forma a autonomizar as novas salas como células independentes e mostrar distintamente dois tempos de intervenção. Demolição da parede exterior para integração e enquadramento do jardim como parede / diferente de sala para sala.

As paredes são afagadas e pintadas a branco. Devido às exigências mecânicas da arte contemporânea, o tecto mantém o acabamento inicial - reboco areado grosso e o pavimento é em betonilha afagada à cor natural.

Para o mini-auditório e livraria optou-se por um revestimento de todos os planos em madeira, funcionando a quase totalidade das paredes como armários.

A circulação principal faz-se do lado da luz, paralela à circulação exterior do edifício, junto da parede demolida e é apoiada num banco contínuo virado às salas de exposição.

Pelo interior e resolvendo um problema grave de ventilação e eco (o edifício não tem ar condicionado),

as galerias são ligadas por passagens estreitas, que criam compromissos visuais entre os diferentes espaços.

O plano inferior da pala exterior existente foi pintado de um verde quase imperceptível mas que cria uma pregnância cromática entre a fachada e o jardim.

Para a área de recepção, utilizámos de um violeta azulado na parede do fundo , que acentua visualmente a profundidade de campo, reforçando o efeito perspético da entrada.

 

Planta da pré-existência

 

Planta da proposta

 

Axonometria da proposta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fotos - Emanuel Brás

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pedro Tudela

 

 

 

Miguel Palma

 

 

Mike Kelly

 

 

 

Miguel Leal

 

 

Sebastião Resende

 

 

 

João Fonte Santa

 

 

Rui Serra

 

 

Luís Alegre

 

 

 

Pedro Amaral

 

 

Tone Scientists

 

 

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