Uma Casa Na Escuridão do Tempo  

Francisco Manuel Ferreira 

 

1

[Sentava-me na cadeira de baloiço e fumava cigarros em jejum com os olhos parados na montanha. Lá ao fundo, o seu corpo de árvores e de terra tinha sido para mim um pavor desde criança. Durante anos, ao olhar a montanha, imaginava-me uma pedra pequena, uma pedra muito pequena, envolta em negro, asfixiada, imaginava-me um grão pequeno de terra no interior negro de algo tão grande que, ali no negro infinito, não conseguia imaginar. E pensava na escuridão, durante anos, durante séculos, morto rodeado de mortos, morto entre milhões de mortos, na escuridão. (…) E, lá ao fundo, a montanha era um silêncio gigante e muito verde. A montanha era a sua distância e o céu infinito que a rodeava. – p. 26]

Era uma vez um escritor e a sua casa que é simultaneamente núcleo e envolvente, é corpo dos corpos que a habitam. O escritor coabita  com a mãe -  que é uma presença fantasmática e inerte onde a memória esbarra, permanentemente, na sua própria sobrevivência - e com a escrava Miriam, consciência física e terna da violência em que foi consumado um amor impossível, extremo e irredutível da sua mãe, a escrava Madalena,  com o pai do escritor. Percorrem a casa, ainda, milhares de gatos que metaforicamente a cobrem como um manto negro que cristaliza e vicia a lógica temporal do seu lugar.

Criada por José Luís Peixoto no romance Uma Casa Na Escuridão, esta casa caracteriza-se desde cedo na narrativa como abrigo voltado do avesso, esventrado e impregnado por uma atmosfera de eternidade que determina os personagens como recipientes falsamente melódicos de um destino inevitável e cruel: o do sofrimento irreparável e confuso, numa vivência que oscila entre a completa submersão à orgânica dos corpos e uma sofregamente desejada exposição ao exterior longínquo e desconhecido, ao ar rarefeito e inócuo, que, lentamente, ocupa o desenrolar de oníricos acontecimentos. Vagarosa, a construção e destruição da casa desenha-se, ao longo do romance, como um arco quase perfeito de acções desconcertantes envoltas numa sedutora anacronia. De forma subliminar, a casa assume o duplo papel de forma e fundo, sendo sempre lugar distante e figura indefinidamente próxima, receptáculo austero de um presente colapsado pela perda de identidade e volume trespassado pelo que Eduardo Prado Coelho apelida de  desfazer sistemático da historicidade dos tempos. Por isso nesta casa assistimos a um alinhamento quase paródico entre o absurdo e o apenas verosímil, onde a esperança ocupa o espaço irredutível do desespero, o sonho se confunde com as feições retorcidas do pesadelo, a perversão exibe o sorriso leve da inocência, a linha singular do quotidiano reúne os pontos dispersos da totalidade do tempo.

 

2

[Depois, quando o meu pai morreu, quando a escrava Madalena morreu, a casa parou como um corpo que deixa de viver, mas que continua a existir apenas para acumular lixo e pó, um corpo de paredes usadas a acumular cada vez mais cicatrizes, um corpo de loiças rachadas na pele, de mobílias a ranger nas articulações dos ossos, de tapetes gastos sobre o rosto. (…) A casa atravessou o tempo, como um homem suspenso, de olhos fechados sob a tempestade. p. 62]

Da morte do pai do escritor, que arrasta consigo o corpo por si assassinado da escrava Madalena, resulta, como primeiro e verdadeiramente explícito golpe, uma paralisia que determinará uma inversão; o espaço da casa, que antes era aglutinador de medidas de tempo distintas, condutoras de experiências que suavemente se entrelaçavam na definição de um quotidiano, transfigura-se em pura imagem, erradicando a experiência inocente do presente, que no seu revolver, passará a habitar a cicatriz dessa incisão. Daqui decorre que o entendimento especial da casa se passa a sustentar, também, segundo uma perspectiva invertida, segundo uma percepção que parte do exterior para o interior do olhar que a configura, impondo a cada passo, a cada objecto, a cada momento, uma existência atraída pelo vácuo que o seu inerte envelhecimento pressupõe. O atravessamento neutro e infinito do tempo a que fica votada a casa a partir do desaparecimento do patriarca, torna-a por isso num invólucro de cujo interior – agora petrificado - nenhuma acção poderá jamais abarcar um exterior que, como um vento cálido, bafeja o seu limite em sucessivas e vãs tentativas de lhe devolver o fôlego. O seu presente que é o seu passado, que é o seu passado a resistir ao presente, torna-se assim ainda mais disjunto do quotidiano exterior, metaforicamente fixado na montanha, que agora, fica mais longe. [Nessa tarde, a cadeira de baloiço ondulava branda. O aquecedor a gás ardia devagar. Os gatos dormiam. Nessa tarde, chovia lá fora. A montanha era muito, muito longe. A escrava Miriam estava parada. A minha mãe estava parada. A casa envelhecia. - p. 61] Por isso a vivência do escritor se transforma em experiência interna ao seu próprio corpo, apoiada numa paixão impossível, numa mulher impossível, da qual ele e a sua escrita – que é ele de novo – se passam a alimentar compulsiva e exclusivamente. Aqui se inicia a escuridão desconstruída do tempo desconjuntado que habita e determina a casa e o mundo em seu redor, o obscurecimento do espaço transformado num tempo renitente de sentido. De olhos fechados, sentado à escrivaninha, o escritor encontra na escuridão do seu interior o reflexo luminoso da ausência que, fora dele, lhe está destinada pela indiferença da mãe, provocada pela descoberta da impossibilidade de um lugar na morte do pai. Aquele rosto, aquele corpo de uma mulher impossível que o habita por dentro, tal qual a casa o habita a ele. No lugar do negro da escuridão que no exterior dele se mascara em representações mais ou menos atípicas de um entorpecedor quotidiano doméstico, o enigma de uma mulher viva dentro dele, a olhá-lo, a legitimá-lo. [Então, fechei os olhos com força e fixei-me no que via. (…) Via o que se vê com os olhos fechados. Via o negro dentro de mim e via os pontos de luz que o quebram, as vagas de luz, as figures abstractas de luz, os vultos de luz, as sombras de luz dentro da luz do negro dentro de mim. (…) Mas, naquela noite, comecei a distinguir algo dentro desse negro. Lentamente, devagar, um a um, os pequenos pontos luminosos deslizaram no negro e, pela primeira vez, vi que tinham uma direcção. Lentamente aproximaram-se uns dos outros numa harmonia que existia ainda sem lógica. (…) Depois começou a surgir cada contorno de um rosto e de um corpo. (…) Era um corpo de luz sobre o negro. Era uma mulher. Olhei-a até ser completa. (…) Ela olhava-me também. p. 17] Antes disso era a mão a tremer porque também o mundo – o seu mundo - tremia na dor da inexistência de futuro, na dor do presente sempre presente, na dor do passado sempre presente. Agora, todas as noites, à escrivaninha, o escritor aguardava o consumar do cansaço da mãe, que se retirava seguida pela escrava Miriam, segurava com a mão a tremer a esferográfica, e, no momento em iniciava o acto da escrita a mão recuperava a firmeza; escrevia noites a fio, sentado à escrivaninha que tinha sido do seu pai, repetia o acto que tinha sido do seu pai, repunha, inconscientemente, o centro da casa.

Por isso a casa é, em si mesmo, à maneira de Heidegger, um sujeito existencialista circunscrito ao meio que de si próprio emana; é um personagem activo e resistente que intimida o correr simplista do tempo, envolvendo as suas inflexões numa mordaça rememorativa pesada. A este propósito, Iñaki Ábalos, no capítulo dedicado à cabana de Martin Heidegger situada na Selva Negra, do seu livro La Buena Vida, declara como caracterizador da organização especial do espaço doméstico existencialista, o facto de aí ser permanente a presença latente de um esquema hierárquico autoritário, de um habitar em torno à protecção do exterior e à primazia do pai. A figura centralizadora e impositiva do pai do escritor, também ele escritor, definia assim, em torno de si, em torno da escrivaninha onde todas as noites se sentava a escrever sonetos, em torno da devoção apagada da mulher e da obediência do filho, em torno, ainda, do amor simultaneamente visível e oculto da escrava Madalena e da inocente interjeição da escrava Miriam, a disciplina monocórdica da casa que era também a determinação de uma ordem temporal cadenciada pelos longos serões na sala, sempre concluídos com a conclusão de mais um soneto. [Nunca soube porque escrevia. Quando escrevia, sentava-me à escrivaninha, puxava uma folha branca, procurava a minha esferográfica e encontrava, uma a uma, as palavras. Durante anos, habituei-me a ver o meu pai cumprir o mesmo ritual.  O meu pai escrevia sonetos. Depois do jantar, todos os dias, sentava-se à escrivaninha, acendia o cachimbo e começava a escrever e a riscar, a escrever e a riscar, a escrever, a ler em silêncio, a meditar, a riscar e a escrever. A minha mãe sentava-se a bordar. Ao fim do serão, o meu pai tinha um soneto pronto e íamos dormir. – p.14] Ainda em La Buena Vida, Mark Wigley é citado por Iñaki Ábalos na afirmação de que o domínio da filosofia é o domínio da casa, a autoridade patriarcal que torna o outro escravo dentro de casa, um servente doméstico ou servo da domesticidade. A construção do soneto é por isso a construção da casa, que é a construção da linguagem; a construção de uma linguagem que é então a de um sujeito centrado e dominante que repetidamente se impõe. Mas a repetição exacerbada da linguagem, que é sempre a repetição do habitar da casa, serão a serão, soneto a soneto, é, como refere Eduardo Prado Coelho, a repetição das coisas pela primeira vez, o ritmo certo que nos conduz, dentro da casa, à disseminação do mundo, à definição de uma distância inexistente entre espaço e tempo que, enrodilhados um no outro encontram no baloiçar da cadeira situada na varanda a doce ironia da sua denominação. [O tempo e o espaço são onde a distância. E um minuto pode ser um metro ou mil metros, e um metro pode ser um segundo, horas ou quilómetros. Quando a distância está desregulada, o tempo e o espaço transfiguram-se um no outro. – p. 35] Ao longo da narrativa, a casa subsiste por isso ao crescente esvaziamento do seu sentido enquanto morada, tornando-se num lugar com um poder que, ora centrífuga ora centripetamente, passará a devastar sem piedade qualquer tentativa de recontextualização. O quotidiano desta casa torna-se por isso numa eterna reconstituição da figura de uma ausência, num erosivo lamento pousado sobre a existência do seu lugar no tempo.

 

3

 [Depois veio o mês da noite. Os dias não nasceram durante um mês. Os relógios, alheios ao mundo, continuavam, a dar as horas, mas era sempre de noite. A luz da electricidade não tinha força suficiente para iluminar o mês da noite. Se alguém acendia uma lâmpada, não se distinguia sequer a luz pequena da presença de uma lâmpada acesa. Às vezes, ia à varanda. Olhava o céu negro, lugar onde imaginava nuvens a passarem lentas à frente do lugar onde imaginava a forma embaciada da lua, as estrelas apagadas nos seus sítios. Olhava a escuridão absoluta, as ruas vazias, o medo dos sons nocturnos. – p. 30]

Um mês por ano a casa mergulha na total escuridão; a respiração tornada escura dos personagens confunde-se então com a homogeneidade da cegueira provocada pela ausência de luz. O espaço da casa, assim despido da sua forma e imagem, torna a memória num animal carnívoro que se alimenta da invisualidade do presente, digerindo-o lentamente como meio para a paralisação do devir. No mês da noite, a escuridão interna ao escritor trespassava a casa, agora desprovida do contraste necessário ao disfarce. Algum tempo antes, tinha mostrado ao seu editor as primeiras páginas do novo romance, que era a mulher que o habitava por dentro. A partir daí, em coincidência com o mês da noite, esmoreceu. Com a mulher dentro dele, percorria a casa às escuras, tentando a fuga impossível, remoendo na sua mente a falha imperdoável de ter permitido ao seu editor acariciar a mulher que o habita. O ciúme, também transformado em negrume, sufocava-o, o corpo de luz da mulher dentro dele era abafado pela memória das mãos do editor a folhear as páginas do seu corpo. Percorria a casa penetrando inadvertida e extemporaneamente na diferença esbatida dos espaços que delimitam o corredor comprido de gatos. Incapaz de escrita, a mão do escritor recomeçou a tremer, retendo as palavras que não conseguia desenhar ou pensar. [Se não estava a escrever, andava pela casa como se fingisse ir a algum sítio, a fugir. Como se tivesse algum destino, como se fosse fazer alguma coisa, andava pela casa por não conseguir estar parado, [por ter de sair de onde estivesse para ir para qualquer lugar de onde teria de sair para ir para outro lugar de onde teria de sair também. Ela perseguia-me dentro de mim. Eu caminhava pelo corredor, entre vultos de gatos. p.32] Nas deambulações do escritor pelo espaço definitivamente transfigurado em tempo, a casa desdobra-se no mês da noite numa sequência de quadros negros que são finalmente retratos fiéis de um lugar comprimido num só tom, que é o tom do sonho inconsciente que, nos corpos dos seus habitantes, a ancora ao sítio nenhum onde se encontra, enquanto, circularmente, a linguagem que é a escuridão das palavras que a constróem se auto-devora, afinal, num reconhecimento visceral do mundo enquanto precipício sem profundidade.