A NOITE EM ARQUITECTURA

Jorge Figueira

 

Jorge Figueira

 

Ground Zero   desenho de Pedro Pousada

 

 

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Dar aulas de história de arquitectura significa tentar fixar o tempo em palavras, tentar compreender o silêncio das imagens. O cinema permite que os edifícios se movimentem, que as personagens regressem à fala. O cinema cria um itinerário flutuante sobre a arquitectura, dá-lhe animação e sombras diferentes. Por isso, vou utilizar o cinema para falar de arquitectura.

No início do século XX existe a convicção que “tudo é arquitectura”. Piet Mondrian afirma “nos tempos futuros, a obra de arte será substituída pela realidade imediata do mundo que nos rodeia”. No início do século XXI podemos dizer que “tudo é cinema”, isto é, a realidade imediata pretende ter a mobilidade, o carácter sintético e a fantasia do cinema. Principalmente a arquitectura. Tendo perdido gradualmente a carga ideológica que o Movimento Moderno lhe impôs, reflexo distante das Luzes, a arquitectura está-se a transformar em cinema, isto é, em narração ficcional para entretenimento - construção engenhosa de imagens que habitamos como um sonho realizado.

 

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No início do século XX há uma luz diurna que ilumina a arquitectura. É a luz da razão que suportada por novas concepções artísticas e possibilidades técnicas permite a libertação da arquitectura em direcção a um novo absoluto. Em analogia com a celebração do movimento que o primeiro cinema significa, a arquitectura moderna ambiciona integrar, como elemento de projecto, o movimento dos utentes no espaço. O conceito de promenade architecturale, de Le Corbusier, significa que a arquitectura deve ser compreendida em movimento e a sua concepção deve responder a leituras mutáveis do espaço. O cinema pode ser assim entendido como uma promenade architecturale fixada e autoral, uma ficção que decorre no fio de uma das possíveis leituras da cidade, de uma casa, ou de um quarto.

O cinema e a arquitectura moderna são ambos resultado da Revolução Industrial. Ambos pretendem ligar a arte à indústria, o transcendente à partilha democrática. Conforme o século XX se vai desenrolando, o cinema e a arquitectura moderna propõem, ou representam, o pulsar mais heróico ou convencional da sociedade, mais totalitário ou humano da actividade política.

 

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A seguir à segunda guerra mundial, a metanarrativa da arquitectura moderna vai-se transformando em apelos realistas, e depois, a partir dos anos 60, assiste-se a uma explosão em várias direcções. Há um big bang e a quimera de um universo unitário cede à multiplicação de fragmentos com uma lógica própria, com uma narrativa interior.

O cinema é o media onde mais naturalmente se repercute esta fragmentação, e onde mais voluptuosamente se trata a história como uma invenção que resulta de diferentes ou antagónicos pontos de vista. O cinema celebra a diferença, a impossibilidade do olhar único, torna plausível o contraditório. O cinema cria o terreno que torna inverosímil a ideologia, substituída pela celebração do episódico, da circunstância, do contingente. O cinema dissolve a noção de permanência e de absoluto, temas tradicionalmente caros à arquitectura. É, por definição, pós-moderno.

Quando Robert Venturi compara Las Vegas a Veneza, reduz o tempo histórico a um écran, a uma superfície luminosa. Utiliza um mecanismo cinematográfico, amplia a realidade, torna verosímil a continuidade de tempos remotos entre si. A cultura dos anos 60 faz-se na colisão da “alta cultura” com a “baixa cultura”, do passado com o futuro, e o cinema é o instrumento definitivo para esta erosão, o lugar onde o erudito e o vernacular, a história e o projecto, se transformam em pura comunicação.

 

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Assim sendo, a luz natural, esperançosa, ingénua talvez, que suporta a arquitectura moderna da primeira metade do século XX, tenderá a ser substituída por uma luz artificial, crepuscular, terminal. Esta é a passagem do dia para a noite em arquitectura: a transformação da arquitectura em cinema - em narrativa mediática, ficção espacial, colisão de tempos.

Segundo Manfredo Tafuri parafraseando Roland Barthes, passa-se das "linguagens de batalha" para as "linguagens de prazer".

A noite em arquitectura significa esta passagem da luz natural para a luz fluorescente, do betão rebocado e pintado de branco para o alumínio e aço inox, da heroicidade para a erosão, do manifesto para o marketing, do preto e branco para a imagem digital, do erotismo para a pornografia, da tabula rasa para a nostalgia, do internacionalismo para a globalização, da arquitectura para o cinema.

Ao longo do século XX, o olhar efusivo e anárquico dos Irmãos Marx, é trocado pelo olhar triste e meliante de Tótó, depois trocado pelo olhar alucinado de Jim Carrey, ocupando o lugar de Andy Kaufmann, em “Man on the Moon”.

 

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Também a arquitectura foi trocando de olhares ao longo do século XX - do dia para a noite - e é a esta passagem que eu gostava de aludir, mostrando 8 edifícios do século XX, habitados episodicamente por imagens de filmes.

Mostro imagens de edifícios acompanhadas por imagens de filmes, propondo relações de analogia ou confronto, como um museu animado das esperanças do século XX.

 

 

Bauhaus, Dessau, Walter Gropius, 1926  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O edifício da Bauhaus significa, como o programa da própria  escola, a integração da arte e da indústria, do racional e do sensível, do dramático e do cómico. Trata-se da procura de um equilíbrio que inclui expressões distintas – expressionismo, construtivismo – mas que se pode sintetizar nos ballets de Oskar Schlemmer que exprimem a tensão criativa entre o homem e a máquina.  

 

 

 

 

Villa Savoye, Le Corbusier, Poissy, Paris, 1928-1931 

 

                 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Villa Savoye é um edifício construído em todas as direcções, envolvendo o tempo como a nova dimensão do projecto de arquitectura. Integra a eficácia da máquina e a perenidade das geometrias que Le Corbusier descobre já na Antiguidade Clássica.  

 

 

 

 

Guggenheim Museum, Frank Lloyd Wright, Nova Iorque, 1943-1959  

 

 

O Guggenheim é o resultado da transformação dos temas “orgânicos” de Lloyd Wright, do princípio do século, em linguagem arquitectónica fantasista, modelada por uma abordagem “aerodinâmica” e motivada pela ficção científica. O Guggenheim é um sonho americano construído no centro da cidade-sede do século XX.  

 

 

 

 

Florey Building, Queen’s College, James Stirling, Oxford, 1966-1971  

 

                                                            

 

O Florey Building retoma na voragem dos anos 60, o carácter de tour de force dos anos 20/30: é um objecto exemplar, uma cápsula residencial em forma de U, suportada por uma pesquisa no plano construtivo que enfatiza os aspectos tecnológicos do edifício. Mas deixa para trás o idealismo da arquitectura moderna, captando as suas metodologias e inventiva tipológica.

 

 

 

 

Gallaratese, Aldo Rossi, Milão, 1969-1976  

 

 

O bairro Gallaratese são muitas cidades sintetizadas numa só banda residencial, uma hiperbolização das convenções da arquitectura, uma história sublimada por um apelo já nostálgico, ainda moderno. O Gallaratese garante uma espécie de ascese através da repetição melancólica, poética, de temas, cujo fio condutor é a inclinação autobiográfica do autor.  

 

 

 

 

FAUP, Álvaro Siza, Porto, 1986-1994  

 

   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A FAUP é um edifício que assume ser apenas uma parte de um todo imaginário, que integra a história da arquitectura moderna mas também a cidade contemporânea. Pertence a uma realidade construída no raciocínio poético do autor, daí a fragmentação, a luz natural obscurecida através do engenho geométrico, o silêncio.  

 

 

 

 

Jewish Museum, Daniel Libeskind, Berlim, 1989-1996  

 

 

O Jewish Museum é sobre a abstracção da dor e sobre a abstracção da memória, um anti-monumento funcional na era do marketing. Dá-nos o espectáculo das luzes fluorescentes e envolve-nos numa espécie de geometria cega que nos vai guiando cegamente.