As leituras e a recepção do De Re Aedificatoria de Leon Battista Alberti

Mário Krüger

 

 

 

Introdução: as leituras do De Re Aedificatoria

 

A editio princeps do primeiro tratado de arquitectura dos tempos modernos, o De Re Aedificatoria de Leon Battista Alberti, publicada em Florença em 1486 por Niccolo di Lorenzo Alamani, coincide com a data de publicação do tratado De Architectura de Vitrúvio, editada em Roma por Giovanni Sulpitius[1].
Esta coincidência não deixa de colocar alguma perplexidade, no sentido de ambos os tratados serem contemporâneos para um leitor renascentista, apesar de haver uma distância de quase quinze séculos entre a feitura de ambos.

 

Figura 1 – Retrato atribuído a L. B. Alberti. Paris. Louvre.

No Quattrocento, a corrente humanista ressuscitou os modelos literários da antiguidade greco-romana com uma consciência linguística que teve por objectivo restaurar o Latim na sua expressão clássica – o Latim Humanístico[2]. É neste contexto que podemos entender que os dois tratados possam ser considerados contemporâneos, como afirma Payne(1999, p. 70), apesar de terem sido inicialmente publicados em períodos distintos.

Ambos os textos sugerem teorias de arquitectura que tiveram processos de recepção diferenciados. O tratado de Vitrúvio teve ampla disseminação no Século XVI na medida em que possibilitou uma interpretação filológica da antiguidade clássica, especialmente das ruínas romanas, enquanto o de Alberti teve por objecto um método de concepção que permitiu a construção, não a reprodução, de uma nova linguagem em arquitectura.

O texto de Alberti, à semelhança do tratado de Vitrúvio, também é composto por dez Livros (“capítulos”) que versam, neste caso, sobre as seguintes temáticas: Livro I - o delineamento. Livro II - a matéria. Livro III -  a construção. Livro IV - edifícios para fins universais. Livro V - edifícios para fins particulares. Livro VI - o ornamento. Livro VII - o ornamento de edifícios sagrados. Livro VIII - o ornamento de edifícios públicos profanos. Livro IX - o ornamento de edifícios privados. Livro X - o restauro das obras. Livros acrescentados: o navio; relatório de custos; aritmética e geometria; os instrumentos que o arquitecto utiliza no seu trabalho[3].

Alberti (Livro I, cap. II) ao descrever os princípios que se aplicam às partes que compõem a arquitectura, se bem que não cite explicitamente Vitrúvio, ainda se refere aos operadores firmitas, utilitas et venustas ao estabelecer “que cada uma dessas partes seja adequada ao uso definido a que se destina e, acima de tudo, seja total a sua sanidade; que para sua firmeza e duração, não tenha defeito, seja sólida e quase eterna; que, para ser bela e agradável, tenha elegância, harmonia e embelezamento em todos os pormenores”.

No entanto, as semelhanças entre ambos os tratados praticamente se esgotam nesta divisão por livros, data de publicação e breve referência aos referidos operadores, chegando mesmo Alberti a afirmar que a sua intenção é apresentar a sua obra numa linguagem acessível, na medida em que o texto de Vitrúvio não pode sequer ser entendido, pois este ao se expressar em Latim mais parecia que o fazia em Grego e vice-versa (Livro VI, cap. I).

Com efeito, logo no Livro I, cap. I, Alberti usa três adjectivos - duris, asperis e obscurantissimus, para se referir às dificuldades do discurso disciplinar, que são contrapostos, em sintonia gradativa, a facilem, expeditissimus e apertissimus para indicar que o seu objectivo não é a “eloquência mas a inteligibilidade” (McLaughlin, 1995, p. 156-7).

Tanto para Rykert et alli (1988) como para Portoghesi (1966) e Choay (1996) a claridade estrutural na organização do De Re Aedificatoria contrasta com a desorganização do tratado de Vitrúvio (2.1.8), apesar de este argumentar que seguiu uma ordem lógica, pelo menos no Livro II: Namque hic liber non profitetur unde architectura nascatur, sed unde origines aedificiorum sunt institutae et quibus rationibus enutritae et progressae sint gradatim ad hanc finitionem ( “O que descreve de facto este livro não são os constituintes da arquitectura, mas os que estão na origem dos primeiros elementos de construção e segundo que princípios foram organizados e progressivamente desenvolvidos até ao estádio de acabamento actual”).

A abordagem de Vitrúvio sobre as origens da arquitectura, a que Alberti alude no Prólogo, mas não cita de forma explícita, distingue os dois tratados: num uma visão mítica, noutro uma ordenação disciplinar.

Para Vitrúvio os homens viviam como animais na floresta mas puseram-se em fuga devido a uma tempestade; ao retornarem descobriram a utilidade do fogo, inventaram a linguagem, descobriram a vida em sociedade e utilizaram essa capacidade para realizarem abrigos diversos; por último, construíram a primeira cabana primitiva e inventaram a simetria, isto é, o advento da proporção.

Choay (op. cit., p. 139) argumenta que Alberti contrapõe, ao longo do texto, a esta visão um conjunto de operadores (meios lógicos para ordenar o discurso) metamíticos, isto é, que recusam o mito mas conservam a sua forma, para se apresentarem sob a forma de breves relatos de origem que se fundamentam na convivência e necessidades humanas e não como “alguns disseram na água e no fogo”.

De acordo com Kanerva (1998) Alberti utiliza exempla, isto é, figuras exemplares para serem imitadas como modelos, na forma da retórica clássica Ciceroníana, para aumentarem o efeito persuasivo dos relatos ou para reforçarem uma convicção sugerida pelo autor. Os relatos de origem Albertianos não são excepção, o exempla é a natureza humana  -  a diversidade dos edifícios deve-se à diversidade dos humanos.

Um passo dos Anais de Énio (VII, 125-129), que Maria Helena da Rocha Pereira intitulou “O poeta inovador” (2000, p. 8), dá uma pista para entendermos, parcialmente neste contexto, o começo do De Re Aedificatoria de Alberti: “….  Nem havia antes de nós quem cuidasse da linguagem. Nós ousámos abrir-lhe as portas ….”.

Olhemos como as portas do De Re Aedificatoria são abertas. Alberti não teve intenção de colocar no título a designação De Architectura, como Vitrúvio o fez, utilizando um neologismo grego. De acordo com Krautheimer (1995, p. 90) “la terminologie de Vitruve est entièrement transposé en latin: le titre De Architectura devient De Re Aedificatoria … [et] chaque fois que le terme grec semble une fioriture surperflue, Alberti le remplace par une description concise …” .

Alberti, no entanto, delimita o campo disciplinar da arquitectura à arte da edificação, ao contrário de Vitrúvio que entende que partes ipsius architecturae sunt tres: aedificatio, gnomonice, machinatio (“a arquitectura é constituída por três partes: a edificação, a gnomónica e a mecânica”,  Vitrúvio, De Architectura, 1, 3, 1).

Tota res aedificatoria lineamentis et structura constituta est (“A arquitectura, no seu todo, compõe-se de delineamento e construção”), corresponde a um dictum Albertiniano (Livro I, cap. I) que merece, neste contexto comparativo, uma leitura atenta.

Torrinha (1945, p. 26) traduz aedificatoria por arquitectura, aedifico por edificar/construir ou edificar/instruir e structura por construção ou estrutura (p. 823). A ideia de que, no quattrocento italiano, ao construir de forma notável,  um cidadão não só mostra a sua riqueza como também contribui para a dignificação da sua cidade, não está distante do segundo conceito de edificar, no sentido de induzir à virtude, à dignidade, ao aperfeiçoamento moral.

Assim, vem a propósito, no contexto do entendimento sobre a cultura do Renascimento em Itália, onde “à descoberta do mundo exterior a Renascença acrescentou um feito ainda maior quando primeiro discerniu e trouxe à luz a natureza plena e integral do homem” (Burckhart, 1991, p. 184), traduzir De Re Aedificatoria por Da Edificação e não por Da Arquitectura.

Lembremo-nos que Camões coloca, em rima, edificaram e sublimaram nos dois últimos versos, da primeira estância, do Canto I dos Lusíadas: “E entre gente remota edificaram / Novo reino que tanto sublimaram”, sugerindo uma tensão voluntária entre o semelhante e o dissemelhante, que concorre para uma relação de identidade, no plano do conteúdo, entre as duas palavras. Tema recorrente e explorado, compreensivamente, na obra I libri della famiglia, na qual Alberti se interroga, no prólogo, sobre a  formação do Império Romano: “Statuiremo noi in la temerità della fortuna l'imperio, quale e' maggiori nostri più con virtù che con ventura edificorono?”. Note-se o eco destas palavras na primeira estância do Canto I dos Lusíadas[4].

Por outro lado, structura, que comparece como construção, também pode ocorrer como estrutura no sentido de organização ou de como as partes estão dispostas entre si e na sua relação com o todo. No primeiro caso, structura refere-se à concretização material da edificação e, no segundo, à mental.

Finalmente, Lineamenta é o termo utilizado por Alberti e traduzido para italiano como disegno (Cosimo Bartoli, 1550 e Orlandi, op. cit.),  para castelhano como Trazado (Núñez, 1991) e,  para inglês, é adoptado o termo The Lineamentis (Rykert et alli, op. cit.), o que mostra a dificuldade em arranjar um termo equivalente.

Para a entrada lexical delineamento o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia de Ciências  de Lisboa, 2001) regista cinco acepções das quais citamos quatro: 1) traçado  de linhas gerais de um desenho, de uma forma, de uma figura; 2) marcação dos limites, das linhas que dividem, do contorno [de] …; 3) conjunto das linhas gerais de um desenho,  forma,  figura, e 4) Esboço das linhas gerais de um plano, projecto, ideia. Estas entradas estão de acordo com Amo (1988,  p. 61) que afirma que, por lineamenta,  Alberti entende tanto "las líneas que se traza - dibujo - , como las líneas que delimitam los cuerpos – aristas – y las líneas que delimitan la visión de los cuerpos – contornos -. Los lineamenta definem lo que veo, lo que trazo y lo que fabrico”.

A importância que Alberti dá à construção de linhas que contribuem para a geração de formas geométricas precisas, sejam circulares ou poligonais (decágono, octógono, hexágono, quadrado mais um terço, quadrado mais metade e quadrado duplo), é sugestiva das propostas que o autor faz posteriormente, na procura da “forma perfeita”, tanto para as igrejas de planta central como basílical.

O termo delineamento evoca, assim e apesar da polissemia que apresenta, a representação por meio de linhas ou traços do objecto que se constrói bem como dos mecanismos de concepção que lhes estão associados. As inter-relações recíprocas entre “o que vejo, o que traço e o que construo” caracterizam o que Schön (1985) entende por “reflexão em acção” para designar, em oposição a um corpo estático de conhecimento, o processo contínuo e dinâmico de aquisição de saberes pela prática de projecto em arquitectura, que se assume como auto-correctiva e em sintonia com um quadro de referência disciplinar relativamente estável. Este entendimento já está presente em Alberti, principalmente pela maneira como coloca o processamento da dimensão temporal na elaboração do projecto e a que Choay (op. cit., Cap. 2) designou, apropriadamente, “le désir et le temps”.

A demarche Albertiana é de promover o arquitecto como um praticante das artes liberais - que praticam uma coisa mental - e não das mecânicas - que elaboram uma coisa material - que tinham, na idade média, um lugar subalterno. A este propósito Kristeller (1990,  p. 181) sublinha que “an early expression of the increasing prestige of the visual arts is found on the Campanile of Florence, where painting, sculpture and architecture appear as a separate group between the liberal and the mechanical arts” o que, posteriormente, veio a originar as Arti del disegno que, muito provavelmente, estão na base do sistema “Beaux Arts”.

A palavra Arquitecto, que comparece logo no Prólogo do De Re Aedificatoria, deriva de Arkhitékton que é um termo grego composto pelo substantivo tékton  que significa carpinteiro ou construtor e pelo prefixo arkh  que significa mestre ou ordenador (Rodrigues et alli, 1996, p. 44). Platão no Político (259 e - 260 a) sugere que o Arkhitétkon não é um operário mas um director de obra que contribuí com conhecimento teórico e não com uma operatividade manual para a realização da obra. De acordo com Rykwert et alli (op. cit., p. 366) a “medieval tradition held that it was derived from the Latin words archus and tectum; the architect was thereby associated with the carpenter, the builder of roofs”.

Alberti  refuta estas etimologias e distingue entre uma actividade prática, que se baseia  na intersecção de uma maestria que solicita saberes heterogéneos, e uma actividade mental que caracteriza a actividade disciplinadora e, simultaneamente, individual do arquitecto. Com efeito, Alberti afirma que “Quanto a mim, proclamarei que é arquitecto aquele que, com um método seguro e perfeito, saiba não apenas projectar em teoria, mas também realizar na prática todas as obras que, mediante a deslocação dos pesos e a reunião e conjunção dos corpos, se adaptam da forma mais bela às mais importantes necessidades do homem” (Prólogo).

Pela primeira vez, o arquitecto deixa de ser entendido como um praticante de uma arte mecânica para passar a ser o que sabe projectar e construir uma cosa mentale.

 

 

A recepção do De Re Aedificatoria

Ao dar importância à dimensão escrita o texto de Alberti introduz uma aparente e flagrante contradição ao produzir o primeiro e único tratado de arquitectura do Renascimento que não é ilustrado, para mais numa área disciplinar onde a dimensão visual é da maior importância. Isto pode ser entendido de duas maneiras: a infidelidade da reprodução manuscrita de desenhos - de cópia para cópia - certamente adulteraria a leitura do contexto onde os mesmos se inserissem e, por outro, a importância dada ao poder da palavra escrita para veicular conceitos e regras disciplinares consonantes com a cosa mentale que a arquitectura passa a assumir. No entanto, ao deixar de ser uma das artes mechanicae para passar a ser, não uma arte liberal, mas uma das arti del disegno[5] a arquitectura passa a solicitar a participação de um meio gráfico de representação, expressão e comunicação que está totalmente ausente no De Re Aedificatoria.

A ausência de imagens no texto de Alberti não possibilitou a reprodução generalizada das obras da antiguidade clássica como ocorreu, posteriormente, com os Quatro Libri di Architettura de Andrea Palladio e permitiu, de algum modo, a padronização das ordens arquitectónicas na medida em que dissociou, ao contrário do que ocorreu com o texto de Vitrúvio, a utilização destes sistemas de ordenamento face a tipologias arquitectónicas específicas.

Carpo (2001, p. 120) coloca, a este propósito, que “altough he never arrived at a truly standardized set of models for the orders –  something that would  have been impossible without images – Alberti does define a sort of horizontal catalog of their components: three bases, four capitals, three cornices, seven mouldings. All of this was governed by a universal definition, a definition that was at same time a rule for assembly. Every order (columnatio) is composed of a pedestal, base, column, capital, architrave, frieze and cornice. In true Aristotelian fashion, Alberti gives this definition of the comomon aspect (genus) of the orders, each of which then exhibits specific variations (species)”.

 


Figura 2 – Manuscrito do De Re Aedificatoria.

ModenaBiblioteca Estense. Circa 1485.

 

No entanto, em alguns casos, que são mais excepção que regra, Alberti sugere que o desenho dos perfis das molduras possa ser elaborado pela composição das letras maiúsculas “C”, “L” e “S” combinadas de diferentes maneiras, como se neste caso, fosse possível o recurso a uma representação simplificada de formas desenhadas - de platibandas, coroamentos, óvalos, astrágalos, meias canas, ondulações e concordâncias (Livro VII, cap. 10).

Somente com o advento da imprensa é que o texto de Alberti é publicado em 1486 e, em 1550 em Florença, é editado com imagens que ilustram os princípios colocados pelo autor. Trata-se da L’architettura (De Re Aedificatoria) di Leon Battista Alberti tradotta in lingua fiorentina da Cosimo Bartoli … con l’aggiunta de disegni., publicado por Lorenzo Torrentino. Desde então, os textos ilustrados do De Re Aedificatoria aparecem, em sua grande maioria, com os desenhos da edição de Bartoli.

Choay (op. cit. , p. 140) coloca-se, no entanto, numa posição crítica em relação à disseminação de imagens nas sucessivas traduções e edições do De Re Aedificatoria. Esta autora defende a ausência de imagens no texto Albertiniano “comme un moyen de defendre la valeur générative des règles et la méthode albertiennes contre le pouvoir réducteur de l’image” que corresponde, segundo Carpo (op. cit.), a um mundo mental - verbis solis - anterior à imprensa, que reproduz de forma mecânica as ilustrações inseridas, posteriormente, junto daquele texto.

 


Figuras 3 e 4 - Prólogo da Editio Princeps (1486) e capa da edição de Cosimo Bartoli (1550)

do tratado De Re Aedificatoria de Leon Battista Alberti.

 

 

Desde a publicação da edito princeps  do tratado de Alberti foram feitas 24 edições do mesmo em Latim (1486, 1512, 1541, 1966), em Toscano/Italiano (1546, 1550, 1565, 1782, 1784, 1804, 1833, 1847, 1966), em Francês(1553), em Castelhano/Espanhol (1582, 1797, 1991), em Inglês (1726, 1955, 1988), em Alemão (1912), em Russo(1935), em Checo (1956) e em Polaco (1960) mas, ao que se conhece, nenhuma em língua portuguesa.

Sabemos que várias versões do De Re Aedificatoria estiveram em circulação em Portugal no Séc. XVI chegando-se a admitir que André de Resende tenha, pelo menos, iniciado a tradução para a língua portuguesa a mando de D. João III. Com efeito, Von Schlosser (1996, p. 157) sugere, baseando-se na Bibliotheca Lusitana de 1741 de Diogo Barbosa Machado, a existência de uma versão manuscrita quando coloca que “la traduction portugaise  par André de Resende pour Jean III de Portugal est encore du XVe. Siècle”[6] para concluir que “cette traduction n’existe qu’ en manuscrit; l’édition supposée de 1493 est une méprise”.

No entanto, esta suposição nunca foi efectivamente constatada pois, segundo Resende, no Prefácio da sua “História da antiguidade da cidade de Évora”, redigido em Dezembro de 1552, para justificar a falta de tempo para prestar outros serviços à vereação, refere que andava “por mando del Rey compondo um livro de Architectura” (Ferreira, 1916, p. 73) mas não, necessariamente, por suas próprias palavras, a fazer a tradução do De Re Aedificatoria. Aquela data está também registada na Cronologia Resendiana, elaborada por Anselmo Brancaamp Freire e publicada em Apêndice em Ferreira (op. cit., p. 233), o que significa que é, muito provavelmente, posterior em dois anos à publicação, em letra de imprensa, da tradução para italiano da obra de Alberti por Cosimo Bartoli o que sugere que, caso André de Resende estivesse a fazer a tradução, poderia ter utilizado como fonte uma versão já impressa e com gravuras

Além disso, Resende, no seu testamento, datado de 1 de Dezembro de 1573, confirma o que anteriormente tinha afirmado: “Mando que os meus livros de São Frey Gil, e d’Architectura, e todos os demais … todo fique ao meu dito herdeiro … [o filho, Barnabé de Resende]” (Ferreira, op. cit., p.135) não se referindo, novamente e de forma explícita,  à tradução do De Re Aedificatoria.

O Cónego Gaspar Estaço, uma espécie de discípulo de Resende, no “Tratado da Linhagem dos Estaços”, discorrendo sobre Simão Estaço informa que o Cardeal Infante D.Henrique lhe escrevera uma carta em que “lhe mandava, e encomendava, q como falecesse mestre Resende natural d’Evora, lhe tirasse da sua livraria certos livros, que desejava haver, como Leo Baptista de Architectura, que ele traduzio en Portuguez por mandado d’el Rei, e outros” (Estaço 1625, p. 42).

Sabendo-se que um dos volumes que D. Henrique muito queria era o manuscrito das “Antiguidades da Lusitânia”, efectivamente entregue ao Cardeal e por este remetido a Diogo Mendes de Vasconcelos para revisão e impressão e que este veio  efectivamente a editar, é de supor que o De Architectura, i.e. o original impresso do De Re Aedificatoria, também tivesse sido “resgatado” da biblioteca de Resende.

Quanto à tradução, se a houve e se não foi pelo mesmo caminho, talvez tivesse ficado por herança do seu filho Barnabé de Resende, dando assim cumprimento ao testamento do humanista eborense.

Tivesse levado descaminho, em Évora, ou tivesse perecido em Lisboa, no incêndio que se seguiu ao terramoto de 1755, o que é certo é que esta tradução parece ter sido uma das obras perdidas de André de Resende e, provavelmente, talvez nunca tenha existido na medida em que este nunca se refere, explicitamente, nem a Alberti nem ao De Re Aedificatoria - tanto no prefácio da História de Évora como no seu testamento.

O relato de Estaço, considerado fidedigno, é publicado 50 anos após o falecimento de André de Resende e refere-se a uma carta do Cardeal D. Henrique, por outras palavras, é uma leitura interpretativa de uma espístola e não um testemunho que possa ser analisado documentalmente.

Interpretação esclarecedora é dada por Soromenho(1995, p. 400) ao referir que as “traduções falhadas de Vitrúvio e de Alberti, empreendidas respectivamente por Pedro Nunes e André de Resende, reflectiam sobretudo o interesse erudito dos círculos humanistas protegidos por D. João III e pelo infante D. Luís, um interesse todavia alheado da realidade - nenhum dos dois era arquitecto - e condicionado pelas alterações de gosto durante o séc. XVI, episodicamente marcado pela desconfiança em relação a uma arquitectura de expressão clássica”[7].

No meio destas especulações, uma evidência marcada por duas datas: a primeira versão espanhola do De Re Aedificatoria é publicada em 1582 em Madrid, traduzida pelo cosmógrafo Rodrigo Zamorano, com o título Los Diez Libros de Architectura de Leon Baptista Alberto traduzidos de Latin en Romance e impressa por Alonso Gómez. Nesse mesmo ano é criado o Conselho de Portugal que assegurava a ligação administrativa entre o reino de Portugal e a corte de Madrid (Rodrigues, 1997, p. 318).

A ocupação, pelos Filipes, do trono de Portugal certamente que não incentivou a publicação do tratado de Alberti em língua portuguesa e quando, em 1640, se inicia a quarta e última dinastia, a de Bragança, não só a tradução de Rodrigo Zamorano é reimpressa, nesse mesmo ano, como já se tinham passado quase duzentos anos desde que Alberti apresentou a versão manuscrita do De Re Aedificatoria ao Papa Nicolau V, perdendo, em parte, a sua operatividade disciplinar inovadora.

Assim, não é de admirar que o novo modelo de profissional seja tardiamente introduzido em Portugal, apesar de a palavra archytectura ter uma circulação oficial já em 1566 ( Viterbo, vol. I, p. 513) e de Filipe Terzi ter sido referido como “meu Architecto e engenheiro” ao ser provido, em 1590, no cargo de “mestre de todas as minhas obras que se fizeram à minha custa” (Viterbo, op. cit., Vol. III, p. 97).       Somente com a chegada de Felipe I a Portugal e do arquitecto real Juan de Herrera é que, provavelmente, se passa a ter uma clara distinção da figura do arquitecto em relação à prática de construção medieval, que solicitava a presença do mestre que, no estaleiro, resolvia, em simultâneo, a concepção e a execução da obra.

A capacidade do arquitecto, como hoje a entendemos, de controlar a obra a partir do projecto - como Alberti sugere no Prólogo do De Re Aedificatoria - é promovida, em Portugal, por Herrera na medida em que os planos iniciais, a que se podem atribuir a sua autoria, da Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora, do torreão do Paço da Ribeira e do palácio do conde de Castelo Rodrigo foram executados e construídos, ao longo do tempo, por outros profissionais (Lourenço, Soromenho & Mendes, 1977, p. 129).

Até hoje, o primeiro tratado de arquitectura dos tempos modernos, que faz referência explícita às atribuições do arquitecto, permanece, para a língua portuguesa, inacessível, o que incentiva, neste contexto, a formulação de um desejo, de um desejo no tempo: de “abrir as portas” em português do De Re Aedificatoria.

Escrito em Latim renascentista por um dos cultores e promotores do vulgar no quadro do primeiro renascimento italiano, como se compreende que Alberti tenha utilizado aquela língua para o escrever?

Com efeito, Alberti é, provavelmente, o autor da primeira gramática em língua Toscana, com uma vasta obra literária escrita em vulgar, chegando mesmo a elaborar a tradução do Latim do seu tratado de pintura, De Pictura,  dedicado a Brunelleschi.

Que Alberti tenha passado pelo rito da puberdade de aprender Latim, esse rito de passagem a que os jovens eram iniciados no seu tempo pelo isolamento da família, pela identificação a um meio masculino e fechado (a escola) e pelo aprendizado de um corpo de conhecimentos inacessíveis a quem estivesse no exterior (Ong, 1967, p. 250-3) isso dificilmente explica, por si só, a escrita em Latim do De Re Aedificatoria.

Ao contrário da língua mãe o Latim renascentista era apreendido de forma predominantemente textualizada e não oral, configurando aquilo que Ong(op. cit., p. 78) caracteriza como sendo a separação da oralidade versus visibilidade. Somente o Latim permitia uma visibilidade controlada pela escrita à mão, cada vez mais isolada da espontaneidade do mundo oral, que permitia a evolução de dialectos vernáculos.

Esta tensão entre Latim e vernáculo - entre o culto do passado classicista e a modernidade da língua mãe - percorre toda a primeira fase do Quattrocento italiano sendo a controvérsia entre Leonardo Bruni e Flavio Biondo, contemporâneos de Alberti, elucidativa sobre a problemática de que língua seria a mais adequada para a elaboração de obras literárias, o que levou Baron(1966) a interpretar a mesma como um confronto e crise entre entre humanismo cívico e liberdades republicanas numa idade de classicismo e tirania.

Alberti no proémio do livro III do I Libri Della Famiglia, escrito em 1433-34, mostra esta dualidade ao afirmar que o vulgar originou-se da contaminação bárbara da nobre linguagem de Roma: “…quelli strani e avventizii uomini el simile se consuefaceano alla nostra, credo con molti barbarismi e corruttela del proferire. Onde per questa mistura di dì in dì insalvatichì e viziossi la nostra prima cultissima ed emendatissima lingua” (p.154) para discorrer, ainda no mesmo livro, sobre a autoridade do vulgar quando comparado com o idioma latino : “Ben confesso quella antiqua latina lingua essere copiosa molto e ornatissima, ma non però veggo in che sia la nostra oggi toscana tanto d'averla in odio … E sento io questo: chi fusse più di me dotto, o tale quale molti vogliono essere riputati, costui in questa oggi commune troverrebbe non meno ornamenti che in quella … E sia quanto dicono quella antica apresso di tutte le genti piena d'autorità, solo perché in essa molti dotti scrissero, simile certo sarà la nostra s' e' dotti la vorranno molto con suo studio e vigilie essere elimata e polita” (p. 155).

Esta fusão do Humanismo com a tradição do vulgar prosseguiu em Florença durante a segunda metade do Quattrocento e expressa-se, também, na Grammatica della lingua toscana, a primeira gramática escrita em vulgar e atribuída a Alberti, onde se argumenta que, à semelhança do Grego e do Latim, também é possível elaborar uma gramática de uma língua que seja falada por toda a gente.[8]

Como entender, num contexto já posterior ao livro Della Famiglia e na nítida aposta de Alberti pelo vulgar, que o tratado de Alberti tenha sido escrito, ainda, em Latim ciceroníano ?

As invectivas Albertianas contra o texto de Vitrúvio pelo facto de que quando este se expressava em Latim mais parecia que o fazia em Grego e vice-versa não explicam a preferência pela primeira língua face à idêntica  importância atribuída ao vernáculo por aquele autor.

O eterno retorno às fontes romanas que ocorre na primeira metade do Quattrocento, principalmente à arte da oratória desenvolvidas por Cícero e Quintiliano, tomadas como modelo de referência para desenvolver o tratado, não se revela, por si só, como suficiente para explicar a adesão ao Latim na medida em que, no século anterior, Dante na Divina Comédia tinha mostrado que tanto a serena como a eufórica eloquência podiam ser, integralmente, expressas em vulgar.

Por outro lado, o estrato social culto do tempo de Alberti comunicava-se em Latim, que era a língua franca numa Europa pulverizada em pequenos estados, cada um com os seus dialectos e variações o que pode, em parte, explicar a necessidade de difundir o tratado a uma camada de conhecedores e promotores de obras que, no contexto do primeiro renascimento italiano, ao construir também contribuíam para a dignificação da sua cidade mostrando o seu poder e a sua riqueza.

Também, a manualidade do Latim escrito à mão, reforçada por uma caligrafia rigorosa e exemplar, exercitada pelos monges no período medieval, pode ter contribuído para a apresentação do tratado naquela língua ao ser confrontado com a oralidade do vulgar que, com raras excepções, passou ao lado dos sistemas de representação visual coevos das arti del disegno, para utilizar a expressão de Vasari.

Devemos, no entanto, chamar a atenção para o facto de a arquitectura, para Alberti, não se confundir como uma leitura textual mas, ao invés, solicitar um aprendizado visual pelo atento estudo de edifícios da antiguidade romana onde este conhecimento não é o resultado de “uma descoberta dos antigos, transmitida através de textos, mas daquilo que registámos, pela observação cuidadosa e estudada das obras dos melhores arquitectos”[9] (Livro VI, cap. 13).

Apesar da ascendente importância do vulgar durante o Quattrocento, o Latim continuou a ser usado, no Séc. XVI, não só na prosa como na poesia e, em particular, no ensino universitário como na elaboração de tratados das mais diversas áreas disciplinares. Kristeller (1990, p. 140) cita C. Denina, autor de um tratado sobre como escrever livros, publicado no Séc. XVIII, que não só chega a elogiar um escritor contemporâneo pelo seu elegante Latim como recomenda que “scrivendo unicamente per persone dotte, e di materie assolutamente non populari, dovrebbero usare piuttosto la lingua latina”. Somente com o advento do iluminismo é que o Latim, como meio de comunicação científica, perde a primazia para as línguas nacionais, que promoveram melhor a difusão dos novos avanços do conhecimento científico e tecnológico, além de denotarem em que países estes progressos ocorriam.

Mas, talvez, o melhor entendimento que podemos ter, ainda, da feitura do De Re Aedificatoria em Latim possa vir das próprias palavras de Alberti no Livro VI, Cap. 1 ao referir-se ao processo de destruição a que as obras do passado estão sujeitas, o que o levou a salvar da extinção uma disciplina a que os prudentes antepassados deram tanto valor ( “officiique esse censeban viri boni et studiosi conari, ut partem hanc eruditionis, quam prudentissimi maiores semper maxime fecissent, ab interitu vendicarem”, p. 443), para continuar afirmando que esta tarefa solicita uma sistematização (colligere) de matérias tão diversas, heterogéneas e dispersas que estão para além das capacidades normais de qualquer autor e que, para as colocar de modo apropriado, isso requereria uma capacidade e aprendizado maior do que julgava possuir.

Alberti concluí o Cap. 1 do Livro VI sobre “O Ornamento” dizendo “mesmo isto não me leva a lamentar se alcançar o objectivo que coloquei de convencer o leitor de que o meu discurso pareça mais lúcido do que eloquente. Aqueles que têm alguma experiência neste campo da escrita avaliarão da sua dificuldade, melhor do que aqueles que nunca correram este risco. O que escrevemos (a não ser que me engane) é em Latim correcto e de forma inteligível. Daremos o nosso melhor para continuar assim até ao final da obra”.

O facto de Alberti considerar que “ut esse Latina non neges et satis intelligantur” mostra as preocupações do autor em ser, acima de tudo, inteligível face ao risco de elaborar um discurso sobre uma disciplina que considerava em vias de extinção.

O rigor que a obra solicitava encontrou no Latim Humanístico o seu veículo de expressão pois este apresentava-se, ao contrário do vulgar, como uma língua com estruturas morfo-sintácticas bem definidas e com um léxico universalmente aceite, que a caracterizava com uma aptidão especial, durante o Quattrocento, para a elaboração de um discurso disciplinar e científico.

A elegantia no léxico, a compositio na sintaxe e a dignitas no recurso às figuras de estilo estão presentes no discurso Albertiano sobre arquitectura, mas a primeira lição é o rigor e a inteligibilidade associados à formulação de uma hipótese - ao risco de  extinção disciplinar contrapõe-se uma nova abordagem ao acto de edificar pela mediação do projecto como instrumento de concepção, expressão e controle da obra. Esta é a tese central da disciplina de arquitectura como a entendemos, ainda, actualmente.

Talvez encontremos aqui uma pista para se perceber as perplexidades que os profissionais de arquitectura encontram, nos dias de hoje, entre os resultados eloquentes das obras construídas e os discursos disciplinares que solicitam rigor e inteligibilidade mas que, por vezes, se apresentam como duris, asperis e obscurantissimus,

 

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[1]  Payne (1999, p. 70-71) argumenta que o facto de um tratado ter sido publicado em Roma e o outro em Florença não foi, provavelmente, uma coincidência mas indicativo de percursos culturais distintos: “Rome was already developing into an archeological centre; Florence, where the physical confrontation with the antique culture was less acute, could and would be the home for a more independent and critical stance”.

[2] “de humanitas, termo utilizado por Cícero em Pro Archia para significar viver de acordo com as Musas e na abrangência de todos os saberes que afectam a condição do homem”. (Silva, 1998, p. 64 ).

[3] Estes últimos quatro livros não foram publicados apesar de terem sido feitas referências ao primeiro e ao terceiro livros (Livro V, cap. 12; Livro III,  cap. 2). Alberti assume que o arquitecto deve possuir conhecimentos de arquitectura naval bem como de matemática para aplicações com finalidades práticas.

[4] De acordo com Jorge de Sena Os Lusíadas são “ não só um prodígio da arte narrativa, como um prodígio de arquitectura significativa ” (citado em Ramos, 1996, p. 53), à semelhança do poderiamos dizer do discurso e relatos do De Re Aedificatoria. O primeiro texto escrito em português, sob a forma de poema épico, o outro em latim humanista sob a forma de prosa ciceroníana.

[5]  De acordo com Kristeller (op. cit. p. 173, 175 e 182) no esquema das sete artes liberais - gramática, retórica, dialéctica, aritmética, geometria, astronomia e música - somente a música, entendida como teoria musical, é admitida no seu seio ficando as artes visuais fora desta classificação que perdurou até ao Quattrocento. Nas sete artes mecânicas - lanificium, armatura, navigatio, agricultura, venatio, medicina e theatrica - as artes visuais e a arquitectura eram uma subdivisão da armatura, ocupando um lugar subalterno, mesmo no seio das artes mecânicas. Somente com a fundação em Florença, em 1563, da Accademia del Disegno, por Vasari, é que a pintura, a escultura e a arquitectura passam a ter uma aceitação institucionalizada.

[6] Não é possível que André de Resende,  nascido em 1499, tenha feito uma tradução ainda no Séc. XV. Comunicação pessoal do Prof. Doutor Arnaldo Espírito Santo.

[7] O texto de Vitrúvio foi traduzido, da língua francesa para a portuguesa, em 1998 a partir da edição de C. Perrault de 1673 e reimpressa em 1965, por H. Rua e editado pelo Departamento de Engenharia Civil do IST,  Lisboa.

[8] Com efeito,  Alberti (1973), abre a Grammatica della lingua toscana com a seguinte frase: “Qué che affermano la lingua latina non essere stata comune a tutti é populi latini, ma solo propria di certi dotti scolastici, come oggi la vediamo in pochi, credo deporranno quello errore vedendo questo nostro opuscolo, in quale io raccolsi l'uso della lingua nostra in brevissime annotazioni”.

[9] O entendimento de que a leitura das obras de arquitectura sobreleva a dos textos é, ainda hoje, essencial para o ensino e aprendizado da teoria da arquitectura.