O crítico wallpaper*

Nuno Grande

 

 

Os alunos que, como eu, ingressavam no curso de arquitectura da Faculdade de Arquitectura do Porto no início da década de 80, apercebiam-se lentamente do peso crítico que algumas das revistas da especialidade tinham no seio da cultura arquitectónica de então. Naqueles anos, o debate sobre a condição pós-moderna repartia-se pelos dois lados do Atlântico acentuando diferentes posições, algumas firmadas ainda nas décadas de 60 e 70. Neste contexto, passamos obrigatoriamente (uns mais entusiasmados, outros mais cépticos; uns por seguidismo, outros por auto-didactismo) pelos ensaios de Robert Venturi, Aldo Rossi, Kenneth Frampton, Charles Jenks ou Manfredo Tafuri; mas foi sobretudo através das revistas e dos seus mentores ideológicos que melhor nos apercebemos daquelas posições, em publicações como, entre outras, a Oppositons de Peter Eisenman, a Casabella de Vitorio Gregotti, a Lotus de Pier Luigi Nicolin, a 9H de Wilfred Wang ou a Quaderns de Josep-Lluís Mateo.

Até ao fim da década de 80, o mundo editorial da arquitectura manteve-se aparentemente pluralista sem deixar de ser ideológico, e cada editor nutria o que então se denominava de tendência. Em torno deste, os críticos funcionavam como uma espécie de managers para determinados arquitectos, divulgando os seus percursos e projectos, dedicando-lhes textos monográficos. Essa polarização crítica permitia-nos, enquanto alunos e ainda que de uma forma simplista, descodificar aquelas tendências e com isso enriquecer a nossa própria forma de saber ver a arquitectura (para lá da que Bruno Zevi nos ensinava).

A partir do início da década de 90 (coincidindo com a queda de muros e divisões políticas na Europa) assistimos ao progressivo enfraquecimento ideológico no seio da crítica de arquitectura, ainda visível na forma como esta chega ao nosso actual universo pedagógico. Os críticos passaram da sua condição de manager à de MC (Master of Cerimonies) reduzindo o seu papel ao de apresentador do starsystem arquitectónico. De resto, um MC não é mais do que aquele elemento que, no universo musical do rap ou do hip-hop, apresenta a banda ao grande público, ilustrando-a com o glamour da sua voz; e o que é curioso notar é que este fenómeno ocorre no preciso momento em que distintos arquitectos se juntam em grupos com nomes semelhantes ao daquele universo musical: OMA, MVRDV, WEST 8, NOX, PERIPHERIQUES, HOST, BLOCK,....

Deixando a caricatura de lado, a verdade é que muitos dos críticos mais influentes institucionalizaram-se – tornando-se em gestores, politicamente correctos, de museus públicos, de fundações privadas ou de bienais no âmbito da arquitectura – ou foram engolidos por grandes grupos editoriais cada vez mais agressivos e competitivos, que procuram esbater os extremos ideológicos em tudo o que é escrito e divulgado pelas revistas (algumas mantendo os mesmos títulos de outrora).

Esses grupos passaram a encomendar aos arquitectos mais mediáticos a produção das suas próprias (e espessas) monografias, preferencialmente bem ilustradas e, aos críticos, prefácios apologéticos ou entrevistas em catálogos e exposições retrospectivas (quase sempre comissariadas por eles próprios) – vejam-se, por exemplo, a proliferação de monografias como S,M,L,XL ou de revistas como a El Croquis. Noutro âmbito, alguns editores encomendam, aos mesmos críticos, pequenos artigos sobre design ou arquitectura em revistas mediáticas e glamorosas como a blueprint ou a wallpaper.

Uma das principais vantagens deste nivelamento editorial reside no facto de ser agora possível comprar simultaneamente essas monografias e revistas no mesmo supermercado ou free-shop, poupando-nos tempo em visitas a livrarias. Neil Leach, ensaista e professor na Universidade de Nottingham, considera mesmo que nos vamos todos tornando em wallpaper people*, considerando o sucesso proliferante das propostas estéticas e das temáticas genéricas promovidas por aquela revista - the stuff that surrounds you. Consequentemente, a crítica de arquitectura parece cada vez mais enredada num processo de estetização e de ilustração da produção arquitectónica contemporânea, deixando de contribuir para a sua permanente fundamentação ou questionamento.

Alguns apontam a investigação académica (actividade cada vez mais auto-sustentável nas universidades anglo-saxónicas) como forma de (re)construir um discurso ideológico sobre arquitectura. Este poderá ser um caminho, uma vez que a complexidade de uma sociedade progressivamente globalizada exige discursos parciais e bem informados sobre matérias decorrentes da arquitectura – paisagem, infraestrutura, habitação, cultura – ou mesmo discursos mais tematizados – cidades chinesas, Shopping, Lagos/Nigéria, Las Vegas, e tudo mais que a investigação possa inventar, desde que  haja quem possa pagar. No entanto, a investigação em arquitectura só poderá fortalecer a crítica de arquitectura se souber operar sobre a realidade, se a souber ler com discernimento e ironia. Se for apenas, e mais uma vez, a ilustração dessa realidade, então a investigação, tal como a crítica, torna-se inócua.

O meu discurso, aparentemente moralista, encerra o desejo de resgatar para o crítico de arquitectura um claro papel conceptual, já não como crítico-manager ou como crítico-wallpaper*, mas como agent provocateur do debate cultural, da prática projectual e portanto do enquadramento pedagógico que teve há décadas; um papel que só se tornará possível pelo (re)enquadramento da crítica (tal como das revistas, seu meio divulgador) num sistema de problematização e não de auto-complacência.

 

 

* este texto foi originalmente publicado na revista NU, nº 3, do Núcleo de Estudantes de Arquitectura do DARQ/FCTUC, Coimbra, 2002, sob o título A crítica como instrumento, e toma como referência a problemática abordada no ensaio The Aesthetic Cocoon de Neil Lech, in “Re:Generic City”, OASE, Leuven 2000.

ilustração: António Olaio