Uma flor caída

A voltar ao ramo?

Era uma borboleta.

Moritake

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ryoanji 

 

 

 

 

 

 

 

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Ryogen-in

 

 

 

 

 

 

 

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Honeh-in

 

 

 

 

 

 

 

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Ginkaku-ji

 

 

 

 

 

 

 

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Zuiho-in

 

 

 

 

 

 

 

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Reinaji

Espaço  e  Artifício Natural

Jardins no Japão – breve história

Sebastião Resende

 

    

      Este texto surge após uma conversa e apresentação de slides a alunos do DARQ na primavera passada. De algum modo testemunha mais o meu envolvimento emocional e estético de artista plástico relativo a um período em que vivi no Japão, do que racional e científico nesta matéria. Pareceu-me importante mencionar a duração e o carácter de várias acontecimentos históricos relevantes.

     As características dos jardins são normalmente agrupadas em duas classificações de acordo com os tipos de topografia e de chão. Um consiste em construções de montes artificiais, nascente e por regra corrente de água verdadeira – tsukiyama e o outro, hiraniwa, tipo de jardim plano, organizado para representar um vale ou grande planície, sem lago. Uns concebidos para serem vistos a partir de um ponto fixo - kansho, outros, talvez mais surpreendentes, para ir sendo apreciados à medida que vão sendo percorridos – kaiyu. Todos estes jardins, tentando representar a natureza sem a imitar nem bajular mas através de um espaço pequeno captar a sua grandeza, as suas mudanças,  uns mais elaborados do que outros, distinguem-se por um tratamento profundamente cuidado na selecção, configuração e disposição dos diferentes elementos e da sua expressão e intensidade própria (nascente, bica, pia, fio de água, corrente de água, catarata, catarata seca, riacho, riacho seco, rio, lago, mar, oceano, ilha, ponte, vale, encosta, monte, montanha, areia, areia grossa, seixos, cascalho, pedras, pedras lascadas, pedras roladas, rochas, rochedos, musgos, plantas, arbustos, árvores, circuitos de passagem, ...). O espanto maior que podemos experimentar nos jardins japoneses virá provavelmente daqueles cuja paisagem é organizada apenas pelos componentes secos mencionados e alguns musgos – Kare sansui e que corresponde à expressão protagonizada pelos jardineiros-monges zen. Há ainda alguns estilos específicos, de que destaco dois, um que implica um tratamento particular junto a alguns pavilhões de chá para incluir uma passagem húmida e outro que prepara e «encena» para o visitante a melhor entrada de uma casa ou templo.

     Não há registos claros mas é comumente aceite que entre os séc. III e IV o Japão ganhou unidade como nação. Entre os séc. V e VI ocorreram pactos de poder que foram determinantes para o ascendente chinês ao coreano nas influências seguintes, nomeadamente na escrita. A sociedade está estratificada em várias classes sociais. O governo é composto por elementos da aristocracia que monopoliza o poder político. Datam desta época os primeiros jardins imperiais com um pequeno lago e uma ilha ligada por uma ponte, reflectindo essas abundantes trocas. 

     Os séc. VII e  início de VIII, as eras Asuka e Nara,  são caracterizadas pelo mesmo poder central que continua os contactos com o exterior e promove a deslocação de estudantes para a China e o florescimento do budismo. Surgem importantes mosteiros, edificações em madeira de considerável complexidade construtiva sem qualquer recurso a elementos metálicos; algumas delas ainda existem no material original. Na corte e à sua volta foi surgindo uma sociedade que revelou uma sofisticada sensibilidade cerimonial, gosto de delicadeza  protocolar que incentivou o desenvolvimento de vários objectos e práticas artísticas, como a caligrafia, o bonseki e o bonsai , mesmo em períodos de intermináveis intrigas e violentas disputas pelo poder.

     Na era Heian, desde 794, a capital é transferida para Kyoto onde surgiram grandes construções de carácter religioso e residencial. A aristocracia desenvolve-se sofisticando a sua cultura.  Por razões internas ocorre nesta época e até ao início do séc. XII  uma experiência  de auto-isolamento, originando uma singular «japonização»  dos saberes, dos valores e das técnicas estrangeiros, criando designadamente o hiragana, um silabário que facilita a leitura dos ideogramas de origem chinesa, proporcionando uma grande divulgação da escrita literária e poética e um desenvolvimento autónomo de todas as artes aplicadas, nomeadamente as lacas.

     A era Kamakura, do início de séc.XII aos anos 30 do séc. XIV, correspondente à época em que os samurais começam a ter um poder político e social grande. Durante pouco mais de cem anos a sede de governo passa para essa cidade, próxima de Tokyo, enquanto Kyoto aristocrata entra gradualmente em decadência, reduzindo-se à função de preservar a tradição. São retomados os contactos com o exterior e há uma grande proliferação de seitas budistas e consequente construção de templos próprios. O budismo Zen, evolução final do intercâmbio das longas tradições da cultura budista indiana e do taoismo chinês, na China desde 520, vem a ter um enorme e muito criativo desenvolvimento e a enraizar-se com um grande lastro de potencialidades. A escultura, a caligrafia (praticada como expressão artística para além da comunicação estrita) e as pinturas monocromáticas têm um grande incremento, assim como a poesia, o teatro noh, o ikebana (específico arranjo de flores) e os diversos do, (via) das artes marciais.  A cultura budista, confinada à aristocracia do início do séc. VI, passa entretanto a dominar todo o país. É,  na sua fase final, um período de invasões mongóis, disputas entre  norte e sul e início de profunda guerra civil.

     As eras Muromachi, que se prolonga até 1573, e Azuchi-Momoyama até 1603, são caracterizadas por intensa actividade artística a par de novos períodos de guerra civil e enormes devastações. Muitos dos mais mediáticos exemplos da arquitectura budista tradicional, que incluem geralmente jardins, foram edificados nestas eras, como Myoshin-ji,  Kinkaku-ji (pavilhão dourado), Ginkaku-ji, Chisaku-in, Nishi Hongan-ji, Higashi Hongan-ji, entre outros, e Ryoanji, o mais referenciado dos templos zen, estilo kare-sansui . Trata-se deUma outra grande influência zen está relacionada com o consumo de chá nas longas sessões de meditação, prática que evoluiu segundo  uma filosofia unificadora singular para uma etiqueta rigorosa, ritual  estéticamente muito valorizado, dando origem à construção de pavilhões especialmente concebidos para essa cerimónia, e que, sendo separados dos edifícios principais tornaram-se estruturantes dos percursos de muitos jardins. Os teatros noh (forma teatral cortesã - «escultura em movimento» - com musica, dança, texto, cenários, máscaras e guarda-roupa de sofisticada contenção e rigor formal) e kyogen (comédia), atingiram nessa altura o seu máximo esplendor. O tiro ao arco tem um grande desenvolvimento, fazendo parte da meditação zen nalguns mosteiros; de resto, muitos chefes militares aproveitaram desse treino mais a disciplina severa, a noção do dever e a austeridade que a contemplação. Durante as convulsões militares muitos aristocratas e samurais afastam-se para os seus domínios e há um grande desenvolvimento de culturas locais. O período Momoyama é propício a algumas produções algo «barroco», por oposição ao rigor estético e à austera simplicidade zen. A chegada dos portugueses em 1542 foi decisiva para a lenta reunificação do país pela introdução das armas de fogo e outras técnicas militares, assim como a construção de grandes castelos com outros materiais, nomeadamente  em pedra, quando a tradição era serem de madeira. Foi um período de violências extremas, onde não faltaram duas tentativas de invasão à Coreia, só concluído em 1615, já na era Edo.

     A era Edo, nome da cidade onde passou a residir o novo líder absoluto, actual Tokyo, começa no início do séc. XVII e termina na segunda metade do séc. XIX . Por razões internas complexas, o país experimenta de novo um longo período de auto-isolamento, os nacionais não podem viajar e todos os estrangeiros são expulsos. O cristianismo que havia sido propagado com muito sucesso sobretudo por jesuitas, (registos locais da época mencionam trezentos mil crentes e a adopção de cerca de duas mil palavras portuguesas, muitas do vocabulário religioso!) é nesta era violentamente proibido. O teatro bunraku (marionetas) tem grande desenvolvimento e o kabuki, (teatro caracterizado por cenários, guarda-roupa e maquilhagem exuberantes, música ,  representação de estilo e ritmo muito  particulares e de gosto mais popular)  está no seu auge. É edificada Katsura Rikyu, residência imperial, inicialmente de verão, no distrito de Kyoto e uma das primeiras grandes construções após a reunificação. Trata-se de um apurado complexo de edificações rodeadas de jardins, nas margens de um rio; o culminar de tradições que foram sendo refinadas. Racionalidade, simplicidade, funcionalidade, economia, assombro, elegância, refinamento e espiritualidade são atributos qualificadores que têm atravessado a opinião de várias gerações de artistas e público a respeito deste complexo residencial e respectivos jardins. São edifícios que respondem às necessidades específicas de um dos mais elegantes e subtis protocolos, à conveniência em proporcionar correntes de ar de modo a reduzir os inconvenientes de um verão quente e muito húmido, complementados com vários e dispersos pavilhões para a cerimónia do chá, outros concebidos com o propósito de se observar a lua,..., percursos por caminhos e veredas, em si meticulosamente preparados e oferecendo sempre vistas admiráveis em todas as estações do ano. (Inicialmente tinha também estruturas para a prática de tiro ao arco, equitação e kemari – espécie de futebol).

 Em 1854 o país é obrigado pelos americanos a abrir as suas fronteiras, iniciando a sua participação na cena internacional, acabando pouco depois o regime feudal - detentor do verdadeiro poder durante 8 séculos - e sequente restauração da monarquia, a era Meiji. É instaurado um regime democrático, ainda que adopte em 1870 o shintoismo como religião oficial, atribuindo ao imperador capacidades divinas influentes até ao final da 2ªguerra mundial.

Num possível estudo comparativo haverá poucos povos a revelarem, num contexto político novo, uma tão rápida aceitação dos valores do vencedor, como a história do Japão testemunha. Generalizando, podemos dizer que após a abertura do regime, a atitude dos mais talentosos criadores esteve de tal modo voltada para o ocidente, que é através deste que voltam a olhar de novo com orgulho  para a grande tradição própria. O jardim – altar é a recriação de um espaço sagrado que se articula com a inconsciente necessidade humana de organização perceptiva com uma representação concreta do cosmos, da natureza, simbolicamente representada pelo jardim zen. A este propósito, mais concretamente de Ryoanji, a revista Nature de 26.09.002 publica um artigo que dá uma explicação científica, para o misterioso encanto dessa composição, (existirá a estrutura ausente de uma árvore cujo tronco converge, por coincidência, com o ponto tradicionalmente considerado o melhor para contemplar o jardim) a meu ver estéril ainda que verificável em estudos biológicos da visão, como são outras «chaves» relativas às inesperadas configurações estruturais escondidas em certas pinturas abstractas.