Hans Haacke, artista alemão instalado desde 1965 nos Estados Unidos, pertence a uma geração de artistas que de modos muito diferenciados traçam "o processo pelo qual o esforço industrial é transformado em ilusão (a retórica publicitária)  e o esforço artístico em mercadoria, um gratificando o outro ."
As contradições que muitas vezes se ocultam debaixo do tapete das políticas culturais são a matéria-prima deste artista.
Este observador crítico e impertinente do bem estar pensante e visual desenvolve uma  produção que causa sérios embaraços e, diríamos mesmo, sabota as cumplicidades de gabinete que se organizam entre a estética e o campo político.
A sua atitude não se esgota na metáfora do grão de areia que abranda o movimento da engrenagem pois, longe de se refugiar na deploração ou na denúncia conformista de que as coisas são assim, a sua obra é um incitamento à reflexão activa e à tomada de consciência.
E um espectador consciente das escolhas que faz e das que são feitas em seu nome é um instrumento de arremesso a uma sociedade que sufoca, através da representação e do formalismo, as aspirações dos "mortos que vivem nos nossos direitos ".
O que Hans Haacke nos pede é que não nos limitemos a admirar a conjugação  dos diferentes media que emprega, ou que nos contentemos com a eficácia estética das suas instalações mas sim que olhemos com  uma insatisfação indignada  a camada polida e plana da realidade que nos dão a consumir.
A nossa iniciativa não deve ser contemplativa mas reactiva. Ficamos a saber e a partir desse momento não podemos consumir a informação sem questionarmo-nos sobre o que ficou por dizer e por revelar e interrogarmo-nos sobre a rede de interesses que garantiu a ocultação do que não foi dito.
A importância que Hans Haacke atribui a uma investigação séria, preenchida com inúmeros factos e documentos que se esconderam deliberadamente do olhar indiscreto dos cidadãos, esse esforço de autenticidade do detalhe dá um valor acrescentado e de maior perigosidade aos seus projectos. È que a linguagem afirmativa está bem ancorada, possui sólidos argumentos defensivos e portanto a detracção, a mentira e a censura institucional, o tipo de violência que o poder económico usa para o combater, dificilmente consegue alienar estas imagens. Aliás a sua obra absorve e devolve como novo material todo o aparelho que se ergue para a isolar e ostracizar.
O carácter críptico e a sedução falsamente ingénua do universo da imagem são expostos cruamente em obras como "Shapolsky et al. Manhattan Real Estate Holdings, a Real-Time System, as of May 1, 1971" (1971) em que expõe as obscuras transacções imobiliárias de Edward Fry que terá, aliás, pressionado as suas amizades no  Board of Trustees do Museu Guggenheim  a cancelarem a retrospectiva  de Hans Haacke em que seria exposta esta obra  ou, também, The Chocolate Master (1981), a propósito do famoso (ou infame) coleccionador e patrono das Artes Dr Peter Ludwig que nas suas fábricas de chocolate espalhadas pela Alemanha, Europa Central, Canada e Estados Unidos pratica políticas laborais que criminalizam a maternidade, que condicionam a vida privada dos seus funcionários ou que aprisionam em habitações comuns  os Gastarbeiter (os trabalhadores convidados ou, melhor ainda, os emigrantes). Hans Haacke refere que têm sido várias as tentativas deste industrial chocolateiro para adquirir a sua obra mas todas elas têm fracassado
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Não podemos também deixar de referir trabalhos seus em que a retórica publicitária é manipulada de forma a desmantelar   as solidariedades políticas e ideológicas que nos anos de chumbo permitiam a sobrevivência económica do regime pária Apartheid, interesses  localizados entre a real politik e a bolsa de valores .
Ou mais recentemente o apoio que a multinacional tabaqueira Philip Morris, sponsor da exposição Braque-Picasso no MoMA, dispensou ao senador direitista Jesse Helms, inimigo confesso de todas as formas contemporâneas de arte e um dos principais promotores dos ataques censórios ao National Endowment for the Arts, para que este criasse um Museu destinado a difundir os "valores americanos".

 Pedro Pousada