Este objecto de Miguel Ângelo Rocha, sendo um objecto de parede, e, sobretudo, por se assemelhar a uma moldura, parece evocar a pintura.

Mas esta moldura nada contém e, pela sua cor, pelo laranja berrante, parece substituir a sua função tradicional de emoldurar, de mostrar, pela de mostrar-se.

E a sua forma mais parece síntese geométrica de um terreno de topografia acidentada.

Á função original de uma moldura, que é a de ser limite, de delimitar uma imagem para a isolar e sublinhar a sua autonomia, aqui, Miguel Ângelo Rocha contrapõe uma situação em que a moldura é que é a imagem.

Assim, com esta moldura, sublinha, não as imagens, mas todo o campo que permite que as imagens aconteçam.

E, no contexto das suas reflexões, que, de forma híbrida, tocam a arte e a arquitectura, este espaço vazio de uma moldura que parece também ser montanhas, pode surgir como um campo que se libertou para se poder construir. Mas numa sugestão que, mais do que tocar a arte ou a arquitectura, parece referir a relação entre natureza e artifício.

Natureza representada objectualmente por esta moldura como lugar das entidades físicas, objectivas, e o artifício aquele espaço vazio, transparente, e, ao mesmo tempo, imagem sugestiva dos processos de imaginar.

 

antónio olaio

 

 

Imagens de exposição de Miguel Ângelo Rocha (Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, 2002):