Álvaro Siza desenhou uma casa para a família Beires, na Póvoa do Varzim, imaginando o que poderia acontecer a um cubo se uma das suas arestas explodisse.

O cubo como ponto de partida apontaria para uma ideia de rigor, no sentido em que muitas vezes se encara o rigor como sinónimo de contenção, e na família das formas geométricas possíveis de se tornarem casa, o cubo será, sem dúvida a mais elementar.

Mas, na obra de Siza, existe a consciência de que o rigor não é exactamente sinónimo de elementaridade.

Álvaro Siza parece ter desenhado esta casa como imagem emblemática do conceito de casa.

Um cubo pode ser perfeito enquanto cubo, mas não o é se for uma casa.

Uma casa será certamente um objecto habitável, mas não se conforma com esta condição. Uma casa é o seu interior mas também as relações com todo o espaço exterior.

E Siza, ao fazer explodir virtualmente uma bomba na aresta de um cubo, cria o jardim, e, desta forma, através dele este espaço privado mas, ao mesmo tempo, espaço de transição para o espaço público.

E fá-lo fisicamente, construindo a casa assim, e, conceptualmente, sugere uma casa liberta de qualquer sentido autista da geometria mais estreita, abrindo-se à entropia de todo um sistema de relações.

 

António Olaio