Na pintura de Caravaggio a luz revela as figuras como elementos escultóricos isolados de qualquer referência espacial.

No realismo da representação, mais do que personagens elas são pessoas.

Assim, Caravaggio, afastando-se de qualquer idealização mística, atinge o misticismo máximo na afirmação da carne, no sentido de: Isto é o meu corpo.

Na sua pintura não só a composição é determinada pela postura das figuras como são elas que determinam a organização do espaço.

Na sua pintura não existe um espaço onde as figuras são apresentadas. Retirando as personagens, podemos dizer que o espaço deixa de existir ou que só a ideia de Espaço infinito, imensurável, permanecerá.

Desta forma, são os corpos destas pessoas a face visível do Espaço.

Só através delas o Espaço infinito pode ter leitura e passar a ser espaço.

E, aqui, não estamos perante o espaço das distâncias, das perspectivas, mas sim o espaço das tridimensionalidades.

O espaço é o espaço que os corpos ocupam e a sua modelação é a que é criada pela orientação dos seus gestos.

A pintura de Caravaggio cria a ideia de que os corpos geram o espaço.

E, para além do corpo - o vácuo, o infinito, a que só a presença de outros corpos poderá dar visibilidade.

 

 

António Olaio