Fresh widow, 1920 

 

Em Fresh widow Duchamp faz corresponder à expectativa de um retrato, que o título poderia sugerir, a objectividade, ou, melhor, a objectualidade de uma janel

À ideia Fresh widow corresponde aquele objecto. Nas expectativas de uma imagem que representasse a ideia, somos, antes de tudo, confrontados com aquele objecto. Aqui, uma fresh widow é uma janela coberta de cabedal preto.

E, ao mesmo tempo, nos processos de imaginar, encaramos a possibilidade de, pela proximidade fonética, até por um mero acidente linguístico, uma french window se poder transformar numa fresh widow.

Se me enganei e disse fresh widow quando quereria dizer french window, não posso, de forma alguma apagar o facto de o ter dito e, possivelmente, a inevitabilidade de ter inadvertidamente criado a ideia fresh widow.

A possibilidade de, inclusivamente, por lapso, uma french window surgir como fresh widow, dá consistência e credibilidade a esta obra de Duchamp, como realidade que pode existir mesmo que para além da vontad

A Fresh widow de Duchamp, não é exclusivamente uma fresh widow nem sequer uma french window mal pronunciada, mas sim as duas coisas ao mesmo tempo e assim, possivelmente, a única representação possível será aquele objecto que é uma french window, cujo cabedal preto que lhe cobre os vidros fechados, e, sensualmente, lhe confere o carácter de também ser uma fresh widow.

Consistência acrescida de ser uma feliz coincidência no implícito erotismo, até porque as janelas, inclusivamente as francesas, quando estão fechadas têm sempre implícita a possibilidade de se abrirem.

Desta forma, coexiste o confronto com a objectividade crua de uma janela, e a extrema sensualidade produzida, recuperando-se, aqui, o sentido comum de imaginar, no que o sensual tem de estímulo à imaginação.

Na relação com a objectividade fria de uma janela, a capacidade de a partir dela ser gerada a sensualidade, traduz, aqui, a imaginação na sua forma de abstracção pura (o que, inclusivamente pode dar sentido aos fetichismos mais bizarros, como resultado de uma extraordinária capacidade de abstracção produzida a partir de objectos aos quais, muito dificilmente poderíamos atribuir qualquer sensualidade).  

    

   La bagarre d’Austerlitz, 1921 (frente e verso)  

 

Um outro readymade de Duchamp, La Bagarre d`Austerlitz, 1921, sendo também, enquanto objecto, uma janela, perante ele o acto de imaginar adquire um outro sentido, que numa determinada perspectiva até poderemos considerar complementar do sentido que a imaginação pode tomar a partir de Fresh widow.

Enquanto que Fresh widow remete a imaginação para a curiosidade voyeurística perante uma privacidade a desvendar, em La Bagarre d`Austerlitz  a atenção não é conduzida para o recato de um interior mas sim é todo um exterior que é sugerido.  

A aparente acidentalidade linguística que transforma a gare de Austerlitz em La Bagarre d`Austerlitz, aproxima a azáfama do trânsito de pessoas e comboios da gare de Austerlitz do tumulto na Batalha de Austerlitz.

Mas é a uma janela fechada que Duchamp dá o título La Bagarre d`Austerlitz, o que nos leva a crer que não é ao seu interior que o título se poderá referir.

O próprio facto de os vidros da janela La Bagarre d`Austerlitz, terem sobre eles pintados sinais característicos de janelas de casa em construção ou em obras, reforça este sentido de casa desabitada cuja vida não passa da reflexão do que acontece no seu exterior.

Enquanto que Fresh widow remete a uma existência individual, privada, La Bagarre d`Austerlitz figura os indivíduos pela acção pura, na sua condição de estarem simplesmente, embora activamente, de passagem.

Sem dúvida que, sendo La Bagarre d`Austerlitz, esta é uma janela que aparenta ter tido uma existência original onde nem sequer seria olhada, sendo por isso nomeada pelo que aconteceria no seu exterior.

Os processos da imaginação que transformam aquela janela em La Bagarre d`Austerlitz, encontram aqui nova forma de abstracção, chegando-se, no limite, ao próprio facto de aquela janela se aproximar da invisibilidade, no sentido centrífugo da imaginação que catalisa, deixando de existir para dar lugar à sugestão das imagens fugazes de um exterior em perpétuo movimento e transformação, movimento que se amplia e assume limites indetermináveis e intermináveis pelo próprio facto de uma estação ser ponto de partida para outros pontos de partida que se ligam a outros pontos de partida, aproximando-se, pelos limites do que a imaginação poderá abarcar, da ideia de infinito.

 

Eu poderia ter feito vinte janelas, com uma ideia diferente em cada uma, sendo as janelas chamadas "as minhas janelas", da mesma forma como se poderia dizer "os meus esboços"

 

Na diversidade de relações conceptuais revelada por Fresh widow e La bagarre d`Austerlitz, esta possibilidade de Duchamp poder ter feito uma série de janelas como quem faz os seus esboços, indicia as possibilidades multiplicadas de, utilizando sempre o objecto janela, encontrar diferentes situações onde os próprios processos de imaginar assumiriam formas diversas.

Na função estruturadora que os esboços tradicionalmente assumem na elaboração de uma obra de arte, podendo, inclusivamente, chamar-se estudos,  esta possibilidade de utilizar estes objectos como quem faz esboços, indicia a possibilidade de, a partir de obras semelhantes, Duchamp estruturar toda uma gramática da imagem, explorando as diferentes formas e as diferentes direcções que os processos de imaginar podem assumir.

Mas, apesar da possibilidade enunciada por Duchamp de fazer mais janelas, Fresh widow e La bagarre d`Austerlitz, parecem ser suficientemente complementares para serem bastantes, Fresh widow, remetendo para uma pura existência individual, sublinhada por uma janela cega ao exterior e La bagarre d`Austerlitz, num título cujo referente é toda a realidade a percepcionar, existindo na pura objectividade na ausência de qualquer sujeito percepcionador. 

Ao mesmo tempo, deslocando o sentido dos esboços de um artista, dos desenhos para os readymade, Duchamp desloca a autoria, do artista para a realidade.

E, assim, parece fazer corresponder à arte não a forma como o artista vê, mas a forma como as coisas são.

            

     

antónio olaio