Quando Ilya Kabakov cria O homem que voou para o Espaço do seu apartamento cria uma instalação que simula a possibilidade de, com os meios mais rudimentares, e tendo-se a si próprio e ao seu quarto, ao seu espaço mais ínfimo, um homem conseguir conquistar o Espaço.

Para além da força que as viagens espaciais teriam no imaginário soviético, Kabakov, aqui, parece sublinhar a ideia de arte como processo de concepção, mesmo na rudimentaridade dos meios físicos (não propriamente na rudimentaridade dos meios mentais), de abertura de um campo de possibilidades.

De um quartinho para o Espaço, ou melhor da relação entre a inteligência do artista e os elementos do seu espaço, mesmo que ínfimo, para a sua ampliação para um campo de infinitas possibilidades, tão vasto que nem sequer a ideia de dimensão fará sentido.

Com esta instalação Kabakov alia uma expectativa de ficção científica a uma espécie de faça você mesmo, numa situação que poderia ser encarada como patética, pela impossibilidade, mas que, sobretudo, é uma afirmação do poder da subjectividade individual, da sua resistência a qualquer totalitarismo.

 

 

antónio olaio