“Descobrir na análise do pequeno momento singular o cristal do acontecimento total “  

 Walter Benjamin

 

 

 

 

A formula de Claudel referida por Walter Benjamin: “Baudelaire(...) teria unido o estilo literário de Racine ao de um jornalista do Segundo Império”, pode muito bem ser encontrada na  metodologia criativa de Jeff Wall.

Uma  das recorrências  nos “frames” de Jeff Wall é  o jogo contraditório entre o testemunho rápido e fragmentado do foto-jornalismo e os mecanismos próprios da mise-en-scéne (uma equipa de técnicos e de actores, os adereços, o cenário e a pós-produção digital) o que implica dizer do artifício e da sedução.

Esse artifício é intensificado, aliás, pelas caixas luminosas que emprestam aos Cybachrome de Wall uma saturação cromática e um fascínio redobrado.

E o interessante é que se torna sedutor o que é originalmente a porção invisível ou abandonada do nosso quotidiano.

A sua sólida formação teórica no campo da história de arte (Jeff Wall é doutorado pelo Courtauld Institut de Londres com uma tese que problematiza  conteúdos que vão desde o Berlin Dada até Marcel Duchamp e trabalha como Professor na Universidade de British Columbia) e a sua empatia em relação aos pioneiros da pintura moderna como Velásquez, Delacroix ou ainda   Manet não são  elementos desprezíveis na organização cénica que estes “frames” denotam.

O trabalho de estúdio, a reprodução das atmosferas num exaustivo exercício de verosimilhança, (pense-se em obras como The Destroyed Room (1978) ou Insomnia (1994) em que , para resolver um problema de enquadramento fez uma réplica da cozinha do seu estúdio) ou a colagem e implantação digital dos figurantes são significantes que nos reportam para a pintura de atelier oitocentista e para o gosto de recombinar  o dado naturalista de um modo estudado e alegórico. 

Transformar  a representação do acidente inesperado e casual, ou o carácter prosaico e imediato do quotidiano em acontecimentos estéticos, outra das características das encenações de Wall, corresponde à visão baudelairiana de  heroificação do presente.

Veja-se a esse propósito o carácter transcendente do tropeção coreografado em The Stumbling Block (1991).

Mas esse flaneur, postulado por Baudelaire, e que buscaria na multidão dos boulevards a vertigem do anonimato vai pelas mãos de Jeff Wall transferir o seu olhar para os habitantes e para as atmosferas das franjas periféricas.

É esse amontoado violento e  desorganizado de oficinas industriais, passadiços aéreos,  casas pré-fabricadas, terrenos  invadidos de entulho e bairros mal planeados que protagonizará imagens como Diatribe (1985) ou Eviction Struggle (1988). 

É, também, a cumplicidade do nosso olhar de espectadores curiosos e mórbidos que codificará como  familiares  e  estranhos esses diferentes personagens e geografias.

Todos nós já assistimos pela janela de um automóvel, de um autocarro ou passeando pelas ruas das nossas cidades a episódios similares e, contudo,  a incongruência de alguns pormenores, a rigidez de certas poses ou a perspectiva em que são captados estes acidentes excedem as hipóteses da nossa experiência de passeantes.

Em Eviction Struggle (1988), por exemplo,  o nosso olhar não conseguiria ultrapassar os telhados das casas; a informação visual ao nosso dispor seria equivalente à das restantes testemunhas. A visão panorâmica que Wall nos facilita é portanto exonarrativa. Estamos do lado de fora e o pequeno drama combina-se com muitos outros pequenos dramas. A atitude é marxista: conhece-se a realidade convertendo  os seus aspectos impressionísticos em sinais de uma falência estrutural mais complexa.

Outro exemplo onde convivem a acção discreta mas necessária e o espectáculo grandioso é Morning cleaning, Mies Van der Rohe Foundation, Barcelona (1999)

O poema “Perguntas de um operário que lê” de Bertolt Brecht como que se insinua ao observarmos o seu anónimo empregado de limpeza.

Uma mão-de-obra muito provavelmente barata e imigrante assegura a manutenção de um ícone triunfante da nova Tebas moderna e ocidental. E a ironia é mordaz e simbólica, recorda-nos que mesmo nos monumentos à emancipação humana encontramos um pequeno exército silencioso que lava os vidros, limpa o pó, e diariamente lhes reconstitui a aura desgastada.

Temos então  a arquitectura de uma humanidade dignificada onde o estético reencontra o domínio da vida  e este espaço pensado para todos os homens dá trabalho a alguém que por certo viverá, na melhor das hipóteses, acantonado num apartamento de renda social. Mas podemos estar a ser demasiado severos.

 

 

dead-troops-05.jpg (118439 bytes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dead Troops Talk (A vision after an ambush of a Red Army patrol, near Moqor, Afghanistan, winter 1986), 1992

 

 

Neste anfiteatro macabro observamos  a agonia falante e impossível de uma anónima patrulha soviética. É um estertor dramatizado em grande escala e que releva de um dispositivo cinemático complexo.

A  desorientação traumática,  as feridas mortais e o trânse desesperado dos soldados contribuem para um realismo quase documental.  A nossa incredulidade  suspende-se por alguns instantes diante desta impostura bem montada, mas rapidamente a organização logocêntrica  e auto-representativa da imagem, desmentem qualquer proximidade entre a emboscada que se desenrolou em Moqor no Inverno de 1986 e o esforço narrativo desta imagem. A diferença que os separa é a que separa a tragédia da farsa.

Mas o arranjo piramidal e a quase académica insistência na monumentalização dos pormenores introduzem na visualidade desta farsa de moribundos decepados e mortos coloquiais diferentes momentos da História de Arte que, como nota Thomas Crow[1] , vão de Baron Gros a Elya Repin ou de Hieronymmous a Goya.

   

pedro pousada



[1] In Profane Illuminations , Social History and the Art of Jeff Wall, ArtForum, February 1993, New York

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The Stumbling Block (1991)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diatribe (1985)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Morning cleaning, Mies Van der Rohe Foundation, Barcelona (1999)

 

 

                      

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

The Destroyed Room (1978)

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eviction Struggle (1988)