Quadrântidas

Felipe Barbosa,

INFINITO ESTELAR

Sonia Salcedo del Castillo

Coimbra, 17/10/2025

Quadrântida , obra de Felipe Barbosa apresentada no Quarto 22 do Colégio das Artes, articula elementos com os quais o artista vem trabalhando há anos: espaço e reprodução. Em um jogo meticuloso baseado na geometria e que inclui objetos do cotidiano, o artista desenvolve uma narrativa visual voltada para a ideia, muito utópica, de criar esculturas que se expandem ao infinito.

Há um pensamento matemático na poética de Barbosa. A precisão é, pois, algo estrutural na concepção da sua obra. O esforço por ele empreendido em criar um icosaedro a isso se refere. A geometria revela-se como uma espécie de caminho ao infinito e não é mera ferramenta para lidar com reprodução e/ou espacialidade.

Em Quadrântida , o pensamento matemático da geometria parte do universo particular do artista rumo ao cosmo. Não por acaso Barbosa articula à figura geométrica de seus icosaedros instrumentos de precisão (marcadores de laser), acoplanando-os às 60 faces de seu sólido, como se flertassem com o construtivismo. Dessa forma, ele também estabelece um diálogo entre seu objeto e uma referência astronômica que ocorre nos primeiros dias de cada ano, coincidentemente na época de seu aniversário: chuva de meteoros.

No percurso orbital ao redor do Sol, a Terra atravessa diferentes regiões do espaço interplanetário. Todos os anos, no dia 3 ou 4 de janeiro (quando o artista aniversaria), ela nos presenteia com chuva de “estrelas cadentes” ou quadrântidas .

Movido pela ideia desse resultado luminoso resultante da entrada de um corpo sólido proveniente do espaço na atmosfera da Terra, Felipe Barbosa transforma o corpo físico de seu icosaedro em um dispositivo de irradiação de luz. A luminosidade que dele irradia ao depurar formas pentagonais intercaladas entre as suas piramidais o expande de tal forma, que não somos capazes de saber ao certo o quão longe vão chegar… os fachos de laser que dele disparam radialmente e seguem ao infinito, incorporando ao todo da obra conteúdo e continente (o icosaedro e o Quarto 22, respectivamente)

Sendo o Quarto 22 uma galeria sui generis , circular e que não dispõe de paredes, o icosaedro de Barbosa suspenso e ao centro desse espaço finda por criar um diálogo moderno fundamental. Somado ao som de Lost in Space, com teclado de Manuel Guimarães e voz de António Olaio, autor da sua letra e curador desta obra-exposição, Quadrântida nos lança a um espaço imaginado de múltiplas camadas. É concebido, portanto, como uma espécie de ponto zero onde tudo começa rumo ao infinito – qual chave que se abre ao universo, olho que tudo vê ou panótipo cósmico em expansão, sob precisa geometria.